Arqueólogo destaca o CPII em sua trajetória acadêmica

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Rennan Lemos em escavações em Tell el-Amarna – Egito, 2012.
Rennan Lemos em escavações em Tell el-Amarna – Egito, 2012.

Rennan Lemos foi aluno do Colégio Pedro II, cursou o Ensino Médio no Campus de São Cristóvão III, de 2006 a 2008. Atualmente, ele é doutorando em Arqueologia na Universidade de Cambridge e faz parte de uma missão arqueológica no Egito.

O ex-aluno bateu um papo sobre sua carreira acadêmica e deixa uma mensagem de incentivo aos atuais alunos do CPII: “Siga seu coração”.


Como foi o período em que estudou no CPII?

Eu fiz parte da primeira turma do Ensino Médio Integrado em Informática, mas isso não mudou muito o que eu acho que é a maior característica do Pedro II: a diversidade. Muitos dos amigos, os quais carrego até hoje comigo – comemoramos recentemente 10 anos de amizade – seguiram por caminhos bem diferentes da informática.

Um professor uma vez nos falou que conseguimos “dar um coração ao info-homem de lata”, jamais esqueci.

Aquela foi uma época marcada por muitas descobertas e portas abertas. O ambiente que o colégio oferece aos seus alunos é muito estimulante no sentido de fazer perceber quais são as suas aptidões e desenvolvê-las da melhor maneira possível. O contato com pessoas de todos os tipos e classes sociais, com gostos e interesses distintos proporciona um contexto inigualável de aprendizado para a vida. É essa diversidade que faz do Colégio Pedro II único.

O que marcou sua vida nessa época?

Em termos pessoais, definitivamente os amigos que eu fiz. Acho que é
comum que sejam duradouras as amizades que se faz no Pedro II. Em termos profissionais, tive oportunidades que certamente não teria encontrado em outro lugar.

Meus amigos e eu organizamos no colégio grupos de estudo – as células acadêmicas – apoiados pela Microsoft, demos palestras em várias unidades do colégio e em outras instituições, ocupamos posições elevadas em rankings, desenvolvemos – com as nossas limitações à época – websites para o colégio e muitas outras coisas. Mesmo que muitos dos meus amigos não tenham seguido pelo caminho da tecnologia, o aprendizado para vida fica e marcou bastante.

Fizemos também peças de teatro que ficaram gravadas para sempre na memória, apresentações musicais etc. E é claro que os professores fazem total diferença: encontramos neles grandes amigos que lutaram ao nosso lado para que fossemos direcionados para o caminho certo em nossas vidas e nossas carreiras.

Rennan Lemos na Cerimônia de entrega de certificados de Iniciação Científica Jr. – Museu Nacional e Colégio Pedro II, 2008.
Rennan Lemos na Cerimônia de entrega de certificados de Iniciação Científica Jr. –
Museu Nacional e Colégio Pedro II, 2008.

O CPII te incentivou ou ajudou na sua escolha de formação acadêmica?

O colégio me ofereceu tantas possibilidades maravilhosas que me deixaram um pouco confuso por um tempo. Quase prestei vestibular para ciência da computação. Afinal, seria o caminho natural depois de muito esforço empregado nesse sentido, com as células acadêmicas e após ter me tornado estudante embaixador da Microsoft no colégio, parte do programa Student Partners. Mas ao mesmo tempo o CPII me ofereceu o caminho e o incentivo que eu precisava para que eu alcançasse meus objetivos de infância.

O colégio tem uma parceria com o Museu Nacional que permite aos estudantes estagiarem nos diversos setores do museu. Em 2007, eu fui selecionado para a iniciação cientifica júnior no Setor de Arqueologia do Museu Nacional, que posteriormente voltou a ser minha casa durante o mestrado. Isso, junto com a base que o colégio me ofereceu em termos de aprendizado, permitindo que eu fosse admitido no vestibular em uma boa universidade, independentemente do curso de minha escolha.

Conte sobre sua trajetória acadêmica:

Eu fiz minha graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF) de 2009 a 2013. Passei também para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),  mas no fim escolhi a UFF porque lá eu poderia estudar egiptologia – meu sonho de infância. Em 2013, ingressei no mestrado em Arqueologia do Museu Nacional/UFRJ, onde reencontrei os amigos que fiz na época do Pedro II. Hoje sou doutorando em Arqueologia na Universidade de Cambridge e faço parte de uma missão arqueológica no Egito. Desde o início da graduação, minhas áreas de interesse são a Arqueologia da religião e a Arqueologia funerária no Egito. Hoje no doutorado venho pesquisando sobre hierarquias e interações sociais na Núbia (região entre o Egito e o Sudão).

Na sua opinião, por que é importante o ensino do Oriente Antigo nas escolas?

Em tempos de Base Nacional Curricular  Comum (BNCC), de exclusão do ensino de Oriente Antigo do currículo de História, estudar um passado como o do Egito antigo e da Núbia é, primeiramente, questionar uma visão eurocêntrica da história humana. Muito se criticou essa visão nas discussões da BNCC, no fim das contas, foi possível manter o ensino da antiguidade greco-romana, o que, por outro lado, pode acabar reforçando esse mesmo eurocentrismo através da percepção da “origem do Ocidente” em Grécia e Roma.

Estudar o Egito e a Núbia antigos é oferecer bases para a constatação de uma multiplicidade de culturas, e perceber que fora do “mundo clássico”, da Europa, também se produziu coisas grandiosas em termos de cultura e de sociedade. É absolutamente importante estudar essas civilizações grandiosas da África antiga em um contexto como o brasileiro, que ainda sente na prática os efeitos da recente escravidão.
Além disso, estudar o Egito e a Núbia nos permite perceber e criticar a apropriação fantasiosa do “Oriente” por parte da Europa e também nos permite relativizar a centralidade europeia na condução da própria história. Por exemplo, na Idade do Bronze, quando as pirâmides do Egito já eram antigas, a Europa não passava de uma região periférica no Mediterrâneo. Estudar a antiguidade, no geral, nos ajuda a compreender a alteridade a partir da percepção de sociedades tão diferentes produzindo culturas tão grandiosas – não somos os privilegiados da história, e se pararmos para pensar, nossa própria história é mais curta do que a história dos egípcios antigos.Nos livros didáticos, o Egito é geralmente passado como a história dos faraós. Na verdade, tal como em qualquer outro espaço e tempo, a história é muito mais complexa e diversa do que isso. Quando se diz respeito ao Egito, os livros didáticos ainda passam aos alunos aquela velha história política, apresentando o Egito como um conjunto de curiosidades, o que é nada mais que uma visão europeia de um oriente “exótico”.

Rennan Lemos (ao fundo) copiando hieróglifos em uma tumba recém escavada em Luxor – Egito, 2016.
Rennan Lemos (ao fundo) copiando hieróglifos em uma tumba recém escavada em Luxor – Egito,
r2016.

O que sua pesquisa tem a contribuir para o ensino da História?

Minha pesquisa sobre cemitérios populares no Egito e na Núbia pode oferecer alternativas para relativiza essa visão. Eu estudo os egípcios e núbios comuns, “gente como a gente”, e suas formas de interação social, a agência e a criatividade dessas pessoas, suas formas próprias, inovadoras, de se inserirem no mundo, e isso nos apresenta um contexto completamente diferente do Egito dos faraós. A ideia é romper
com uma cultura distante, exótica, e aproximar o passado de nós, afinal o passado nos pertence e nos apropriamos dele de várias maneiras e com objetivos diversos hoje em dia.
No Rio de Janeiro somos privilegiados por termos no Museu Nacional a maior coleção egípcia da América Latina. Esse é um patrimônio que também nos pertence e que se confunde com a própria história do
nosso país, com as coleções de D. Pedro I e D. Pedro II. A coleção egípcia do Museu Nacional, entre outras no país, permite acessarmos a própria materialidade dessa alteridade e grandiosidade de uma
civilização distante de nós no tempo, mas que ainda sim possibilita que vejamos a humanidade presente nos seus objetos. Somos todos humanos, e somos todos diferentes e capazes de produzir coisas maravilhosas,independentemente da cultura, do espaço e do tempo em que estejamos inseridos.

Qual a melhor experiência acadêmica que você vivenciou?

Acho que quando fui para o Egito pela primeira vez, participar como estudante das escavações da Universidade de Cambridge no local que eu vinha estudando até o fim do mestrado, a cidade de Tell el-Amarna. Foi um divisor de águas.

Há algum ensinamento ou pensamento que queira passar para os alunos do CPII que desejam ingressar em uma carreira?

Pode parecer um tanto clichê, mas meu conselho é: siga seu coração. Por mais que as chances possam ser boas em uma determinada área, elas serão muito melhores se você fizer aquilo que você realmente gosta, por mais incomum que possa parecer. Acho que o ser humano tende a dar o seu melhor, consequentemente se destacando, quando faz o que ama. E o Colégio Pedro II nos mostra que todos os caminhos são possíveis, porque nos oferece a base por onde começar.

Hyanarrara Santos (Estagiária de Jornalismo)

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