Lázaro Ramos conversa com alunos do CPII

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Lázaro Ramos conversou com estudantes do CPII

 

Estudantes dos campi São Cristóvão II e III, Engenho Novo II, Humaitá II, Tijuca II, Niterói e Realengo II participaram de um bate-papo com o ator e escritor Lázaro Ramos, na última quarta-feira, 9/5, no Complexo de São Cristóvão.  Nesse encontro, Lázaro falou sobre seu livro ‘Na minha pele’, lido por estudantes do 8º e 9º ano nas aulas de Português e Literaturas. O ator trocou experiências com um público de cerca de 700 pessoas, entre estudantes e servidores do Colégio Pedro II. Durante o encontro, Lázaro passou mensagens de incentivo, empoderamento e resistência, estimulando os jovens a traçarem seus próprios caminhos.

Lázaro abriu a conversa com os alunos levantando uma provocação. Ao ler uma bela poesia de Fernando Pessoa e em seguida um texto do poeta em que ele justifica a escravidão de certos povos africanos, Lázaro apontou como uma mesma pessoa é capaz de gerar discursos contrastantes. “Eu gosto da poesia de Fernando Pessoa, continuo a gostar. Mas ainda assim esse poeta tão admirado produziu um pensamento tão equivocado”, comentou acrescentando que nós também somos capazes de produzir narrativas equivocadas e que devemos construir um mundo melhor sem a reprodução desses tipos de discursos. “Essa foi minha intenção ao escrever esse livro”, completou.

 

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Reconhecer-se negro

O ator contou que foi se tornando negro ao começar a entender as potências que existiam no fato de fato de ser negro e que isso foi possível principalmente devido a manifestações culturais baianas como o Olodum e o Ylê Aiyê, que valorizavam a sabedoria e a produção de conhecimentos dos povos africanos. “Entrei no Bando de Teatro Olodum com 15 anos. Isso me fez conhecer nossos heróis, como Zumbi dos Palmares, que eu não conheci na escola. Isso me fez também ressignificar o fato de eu ser negro e eu fui entendendo minha potência, não esperando que alguém dissesse o que eu era”, contou.

IMG_5527Em relação a sua base familiar, Lázaro falou que apesar de vir de uma família muito amorosa, existiam situações antagônicas de aceitação e rejeição da negritude. “Tinha uma tia-avó que quando aparecia uma negro na televisão ela o rejeitava. Mas essa mesma tia-avó me ofereceu muito afeto e estímulo dentro de casa. Aí eu fui produzindo meus entendimentos. Fui entendo quem eu era, onde poderia ir e o que eu poderia fazer”, pontuou.

Aproveitando a presença da diversidade de estudantes que adotam seus cabelos crespos e cacheados, Lázaro elogiou o fato dessa nova geração de jovens negros assumirem seus cabelos naturais. “Na minha época não tinha isso. Cabelo era raspadinho, menina não tinha maquiagem. É uma dificuldade a gente entender a beleza que há nos mais diversos tipos de traços que existem no Brasil. Ao mesmo tempo em que há pessoas que acham que falar de questão racial é ‘mimimi’, outras pessoas veem nisso empoderamento. Temos um processo de rejeição e um muito positivo, que vem de vocês, que é de afirmação. Isso é um caminho que está só começando”, elogiou.

 

Potencialidades

Ao falar sobre a novela Lado a Lado, na qual interpretou o personagem Zé Maria, Lázaro apontou que essa foi uma novela pioneira, que abordava como o preconceito gerou a desvalorização do potencial negro presente no samba, no futebol, na capoeira e na culinária. “Hoje em dia, reconhecemos esses quatro símbolos como símbolos nacionais”, pontuou.

Para o ator, as novas narrativas devem buscar valorizar as potencialidades negras para além dos relatos de racismo e opressão. “A história de um negro ou uma negra não pode ser definido apenas pelos momentos de dor e de racismo. Nós não somos só isso. Temos direito à humanidade. Temos direito a falar de amor, a falar de nossas dúvidas, dos nossos talentos, dos nossos desejos”, defendeu.

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Diálogo

Lázaro aproveitou para criticar a forma como hoje as pessoas perderam a habilidade de ouvir o outro e argumentar.  “Precisamos resgatar o diálogo para olhar o outro como mais do que uma coisa. Isso vai para os negros, mas também para alguém com quem temos uma discordância política. Esse é um dos maiores equívocos que nosso país tem hoje em dia. Estamos nos perdendo porque tentamos definir o outro com apenas um adjetivo. Não dá mais para olhar para o outro e escutar alguma coisa que a gente discorda e ficar pensando em estratégias para que ele cale a boca. Já silenciamos por muito tempo os vários povos desse país. Já silenciamos a mulher por muito tempo, os negros por muito tempo. Precisamos ter a coragem de ouvir o outro, saber que ele não pensa como você e entender que temos a possibilidade de, a partir daí, criar algo melhor”, defendeu.

 

Influências

Lázaro contou que quando começou a participar do Bando de Teatro Olodum, aos 15 anos, encontrou ali seus primeiros ídolos, entre os atores do grupo, e que também foi lá onde aprendeu a contar histórias de problemas da população negra, de suas revoltas e de suas dores. Em 2000, ao sair do Bando foi fazer teatro com o diretor João Falcão que usava o humor como forma de crítica social. A junção dessas experiências fez com que ele passasse a contar histórias com um conteúdo engajado, buscando estratégias para fazer com que pessoas que não pensam como ele se interessassem pelas suas questões. “Daí veio o Mister Brau, que usa o humor e a autoestima como estratégia de luta”, afirmou.

“A cada coisa que eu escreva busco assumir quem eu sou e entender que tudo que sou é uma potência e que essa potência não quer fazer parte de uma estatística, porque as estatísticas ligadas a pessoas parecidas comigo são muito tristes. Vivemos em um país onde os jovens negros são a maioria dos jovens que morrem. Vivo em um país onde a maioria dos jovens negros saem da escola e não conseguem chegar até a universidade. Onde um jovem negro na escola tem problemas de autoestima e desiste, não se interessa. Tudo que eu faço é para lutar contra essas estatísticas e dizer para vocês, jovens, que vocês não precisam ser estatística, dá para escrever uma outra história”, finalizou.

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Após a roda de conversa, Lázaro ainda respondeu a perguntas de diversos estudantes, do Pedrinho à pós-graduação, passando também pelos alunos do programa de extensão CPII Aberto à Terceira Idade.

Confira um pouquinho das perguntas e respostas:

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Eloá (Campus Engenho Novo II) – Como você lida com o fato de ser referência para tanta gente?

R: Com muito medo. Quando você é referência você alimenta esperanças. Esse medo faz com que eu seja muito responsável em tudo que faça e fale e assuma o compromisso de ser inspirador. Sei as diferenças que as minhas referências fizeram na minha vida. Pessoas que apontaram o caminho e disseram que era possível eu ir além.

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Giovana (São Cristóvão I) – Em algum momento da sua vida você já teve vergonha de ser negro?

R: Vergonha eu nunca tive. Minha história é um pouquinho diferente. Minha família vem de uma ilha de maioria negra, então não tinha comparação de ter branco perto e não sabia muito que eu era negro. Depois fui morar em Salvador no bairro do Garcia, de maioria negra. Eu não sabia que eu era negro, eu sabia que eu era Lázaro. O Bando de Teatro Olodum começou a me falar sobre as questões negras de um outro lugar e fui tendo um conhecimento intelectual dessa causa. Me dei conta da minha negritude quando vim para o Rio de janeiro fazer teatro com um grupo de atores brancos e quando cheguei aqui percebia que tinham olhares diferentes para mim. Eu não tive vergonha de ser negro mas tive um incomodo por ser solitário e por as pessoas não entenderem a potência do ser negro e não entenderem meus sentimentos que não tinha coragem de compartilhar. Minha família sempre foi muito carinhoso e sempre disse para mim que eu era bonito, inteligente, capaz, então eu tive um lugar de proteção que fez a diferença. Ao mesmo tempo que havia uma voz que trazia constrangimento uma outra voz fazia com que eu continuasse a caminhar.

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Giovana (Humaitá II) – Você tem receio de que seus filhos sofram racismo na rua e não tenham como se defender?

R: Temos medo e receio, temos dúvidas de como lidar com esse assunto com eles. Hoje em dia achamos que o melhor caminho é a autoestima, porque os problemas vão aparecer. Temos consciência de que o filho passou pela porta de casa e vai lidar com preconceito, com violência, com medos e disso não temos defender. Acreditamos que dar autoestima para eles é um ponto fundamental e informação. Tentamos conversar com eles a partir das dúvidas que eles tiverem.

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Agnes (aluna da pós-graduação) – A matriz africana diz muito que não podemos falar da nossa subjetividade sem entender nossa coletividade. Como  é esse processo de construir novas narrativas, sem passar pela dimensão da dor e das angustias que carregamos, e trazer a alegria, a força de viver e a reverência pela vida que toda a matriz africana traz para gente?

R: Sou uma pessoa que tenho muitas revoltas. Me emociono muito com essa causa. Acho que os momentos que eu consigo criar novas narrativas sem dor são nos momentos que eu cuido de mim. Falamos da militância como um lugar em que não podemos descansar nunca e que temos que ter respostas para tudo, sempre. Eu descobri que não. Eu cuido de mim como? Ficando com minha família, brincando com meus filhos, lembrando de me alimentar bem, lembrando que às vezes tenho que assistir um filho que me faça rir para fugir das dores, que tenho que visitar meu pai e conversar com ele, interessado no que ele está pensando, que não sou um super herói, que tenho direito a chorar seja por um motivo que me deixa feliz ou por saudade da minha mãe ou por tristeza (…). Essas coisas me são força para continuar e para criar narrativas longe da dor.

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Aluno do CPII Aberto à 3ª Idade – O que você acha do preconceito contra o negro e contra as pessoas da terceira idade?

R: A gente lida muito mal com a terceira idade em vários sentidos. Primeiro por achar que porque a pessoa envelheceu ela não contribui em mais nada para a sociedade, por achar que essas pessoa não tem mais desejos, inclusive desejos do corpo, achar que a terceira idade tem que ficar trancada dentro de casa e não circular pela cidade, achar que a terceira idade não tem que ser remunerada adequadamente. São coisas que temos que ficar atento. Aprendi dentro de casa, com essa mulher que hoje tem 94 anos e que era o eixo emocional de toda a família. Ela é a primeira pessoa com que toda minha família fala antes de resolver qualquer coisa. As vezes discordamos dela, mas temos ela como uma pessoa que já viveu experiências antes de nós e que precisamos escutar, respeitar e valorizar. Fui criado, e crio meus filhos assim também, pedindo a benção aos nossos mais velho. Não é como um lugar de se sentir menor, mas dizendo ‘você é minha ancestral, eu te respeito, eu faço essa reverência e tenho carinho por você’. É assim que eu lido com meus velhos e é uma pena que a gente não consiga fazer isso em todas as famílias.

 

A roda de conversa foi intermediada pelo coordenador-geral do Departamento de Português, Márcio Hilário, e o coordenador do NEAB, Osmar Soares. O evento foi realizado pelo Departamento de Português, NEAB e Diretoria de Culturas/Propgpec.

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O evento contou ainda com exposição de obras do projeto Perspectivese, do artista Oséias Casanova. As pinturas retratam personalidades de diferentes épocas, na história do Brasil e no exterior, que protagonizaram lutas e manifestações em prol da igualdade. Dentre as personalidades destacadas estavam: Machado de Assis, Martin Luther King, Lea Garcia e Angela Davis. Na ocasião, o artista presenteou Lázaro Ramos com uma tela.

 

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Por Bianca Souza

 

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