Bate papo com ex-aluna do CPII, Yasmim Franceschi

Yasmim (à direita) com a amiga e ex-colega de quarto Aina, da Espanha, na TAU

Yasmim (à direita) com a amiga e ex-colega de quarto Aina, da Espanha, na TAU

Nesta entrevista a ex-aluna do Colégio Pedro II Yasmim Franceschi conta como se tornou estudante da Eastern Mediterranean International School (EMIS), uma escola internacional inédita no Oriente Médio que estava selecionando alunos para sua classe inaugural, e hoje estuda Psicologia da Tel Aviv University (TAU).  Para realizar seu sonho de estudar no Oriente Médio, a então aluna da 2ª série do Campus Centro, com apenas 17 anos, contou com o apoio da família, professores, amigos e chegou a realizar um crowdfunding e ganhar divulgação na mídia.

 

Como você ficou sabendo do curso na Eastern Mediterranean International School?  

Tudo começou com Campus Centro, quando estava cursando o 8º ano. Minha professora de Língua Portuguesa, Marina Mansur, apresentou à classe uma instituição chamada United World Colleges (UWC), um conjunto de escolas internacionais de excelência espalhado pelo mundo com a missão de promover a paz e a coexistência de pessoas de todas as origens. O processo seletivo era muito rigoroso e estava aberto a alunos de todo Brasil a partir da 1ª série do Ensino Médio e consistia de uma prova extensiva em Matemática, Português, atualidades e redação; uma entrevista em São Paulo; e uma última etapa chamada convívio, na qual 20 finalistas passaram um fim de semana em completo isolamento em uma chácara no interior de São Paulo, tendo suas habilidades de comunicação, comportamento e liderança profundamente avaliadas por meio de várias atividades psicodinâmicas.

Já existia um histórico de alguns alunos do CPII serem enviados para esse processo seletivo. Eu me mantive ainda mais focada em acumular boas notas, participar de atividades extracurriculares e aprender o máximo possível, pois o meu objetivo era estar pronta para esse processo seletivo na 1ª série.Esse processo foi muito marcante e cresci muito nesse período. Foi a primeira vez que fui a São Paulo, e fiquei impressionada com a diversidade da cultura brasileira. Não consegui uma bolsa mesmo depois de ter sido finalista, mas,  no convívio fiz uma amiga cearense, selecionada para estudar com bolsa na Alemanha. Ela me apresentou ao seu melhor amigo, Gabriel Berdet, que ia estudar na EMIS.

Já estava bem desgastada e decepcionada pelo resultado do processo anterior, mas decidi juntar meus pedaços e passei por um outro processo rigoroso, envolvendo dez cartas de recomendação de diferentes professores, múltiplas entrevistas em inglês, relatórios completos das minhas notas no CPII e de todas as atividades extracurriculares nas quais me envolvi. Graças a Deus, acabei sendo selecionada para participar da turma inaugural da escola com bolsa cobrindo 95% do custo nos dois anos do programa (uns $54.000,00 no total).

Por que você se interessou por esse curso? O que mais atraiu sua atenção na época?

O que mais me atraiu foi sem dúvida a possibilidade de morar numa vila com amigos do mundo inteiro. Compartilhar um quarto com meninas e quatro países diferentes. Além disso, considerei o fato da escola ser voltada à sustentabilidade, diplomacia, cooperação e empreendedorismo global. Fui atraída também pelo programa do Bacharelado Internacional, uma forma de Ensino Médio ensinado em inglês que prepara os alunos para educação universitária e pesquisa acadêmica. Outra coisa que me motivou foi o fato desta região ser extremamente relevante no cenário político e econômico da atualidade.

Como foi a participação do CPII nesse processo? Você contou com apoio da Direção, dos professores e colegas?

Tive apoio incondicional de todos os dez professores que me conheciam por anos no CPII e escreveram recomendações para mim. O CPII como instituição me ajudou na divulgação da minha estória e na busca por doações. Como comunidade, alunos, funcionários e professores demonstraram orgulho genuíno e várias formas de apoio que fica até difícil listar.

Foi sua a ideia fazer um crowdfunding? Como foi essa experiência?

Recebi aconselhamentos de muita gente, mas, na verdade, desde antes de receber o resultado final pensei nisso, pois sabia que minha família não teria como arcar com o custo da passagem, material etc. Foi difícil expor minha vida particular à mídia, mas acabei aprendendo a gostar da experiência. Aprendi muitas coisas que uso até hoje nesse processo, como comunicação em redes sociais, conceitos básicos de marketing e divulgação etc.

Como foi o período de adaptação? Quais os acontecimentos mais marcantes daquela época?

Chegar a Israel sem mal ter ido fora do Rio foi um choque. Foi um processo lento até assimilar o quanto esse lugar era diferente em cultura, meio ambiente, política, economia. Tudo era diferente e, no entanto, as pessoas me passaram um sentimento de conforto muito grande, uma hospitalidade que me lembrava muito o Brasil e isso deve ter contribuído para minha adaptação. Lembro que sentia muitas saudades de casa, estava insegura, às vezes ficava ponderando se tinha feito uma loucura. Eu acredito que as saudades foram mais intensas porque nas primeiras semanas meu inglês não era fluente. Eu precisava do Google Tradutor para me comunicar o tempo inteiro e achei que ia ser difícil me envolver com outros alunos e começar a formar amigos. Mas não foi. Depois de uns meses, a imersão trouxe a fluência, a fluência trouxe mais confiança, e eu comecei a entender o quanto aquele lugar era incrível e cheio das oportunidades e aventuras com as quais eu tanto sonhei. Entrei para a banda da escola como baixista, fui me soltando e fazendo muitos amigos de tantos lugares que ficaram para a vida.

Muitas coisas foram marcantes, é até injusto tentar listar. Acho que só num livro mesmo! Mas vou citar a minha primeira viagem ao deserto, uma paisagem completamente diferente de tudo que vi, a beleza chocante do vazio. Essa viagem me marcou muito. Conhecer Jerusalém, o Mar Morto e pontos icônicos de Israel foram experiências muito marcantes. Era minha primeira vez fora do Brasil, então eu reparava muito nos contrastes ao meu redor. Conhecer e até conversar pessoalmente com Ada Yonath, ganhadora do prêmio Nobel de Química, e Shimon Peres, Nobel da Paz, em eventos promovidos pela minha escola, sacudiu meu chão completamente. Minha experiência organizando um evento TEDx com a comunidade de alunos provavelmente também me fez passar por mais uma metamorfose.

Yasmim e a mãe em Haifa, em sua primeira visita a Israel

Yasmim (à direita) e a mãe em Haifa, em sua primeira visita a Israel

Foram dois anos de curso na EMIS e então você conseguiu uma vaga para a TAU. Você participou de algum processo seletivo?

Tive que participar de dois processos seletivos. Um para ser aprovada na universidade em si, e outro para receber a bolsa de estudos. Felizmente, eu estava muito preparada para esse tipo de maratona depois do EMIS e do UWC. Acho que criei calos para isso!

Yasmim participou da equipe de alunos que trabalhou na produção do evento TEDx, em 2014, na EMIS

Yasmim participou da equipe de alunos que trabalhou na produção do evento TEDx, em 2014, na EMIS

Você conseguiu uma bolsa com a Associação de Amigos Brasileiros da TAU no valor de 50% para custear seus estudos. Como ficou sabendo da existência dessa bolsa?

Sei que consegui uma bolsa de 50% por mérito acadêmico da universidade e os 50% restantes eu acredito que foram doações particulares. Fiquei sabendo pelo representante da universidade, André Chusyd, que esteve no Campus Humaitá II recentemente. Eu entrei em contato e ele respondeu com todas as informações que eu precisava, explicou todo o processo seletivo e me falou da possibilidade da criação dessa bolsa especial para brasileiros um ano antes dela ter sido concretizada.

Você realiza algum trabalho na universidade?

Eu não trabalho na universidade, mas participo de eventos, atividades, reuniões e sempre que posso faço tudo que uma pessoa portando uma bolsa tão importante e generosa deve fazer para contribuir com o crescimento da comunidade estudantil, da Universidade de Tel Aviv e da Associação de Amigos Brasileiros. Estou neste momento planejando projetos voltados ao crescimento da universidade e à popularização dos nossos programas internacionais, junto com a coordenação do meu programa, para serem iniciados nos próximos semestres.

Como está sendo estudar Psicologia na TAU? Pretende seguir nessa área mesmo ou tem outros planos?

Estou no final do segundo semestre apenas. A maioria dos meus cursos são em Psicologia, e tenho a oportunidade de aprender várias correntes de pesquisa e teoria psicológica. Esse semestre faço um curso chamado Métodos Avançados em Psicoterapia, ministrado pelo professor Moshe Talmon, reconhecido internacionalmente por ter escrito vários livros sobre seu método terapêutico revolucionário, que pode ser traduzido como “Terapia de Sessão Única”. Tenho planos de integrar esse conhecimento com ciências da computação, pois em um mundo no qual estamos cerceados pela computação, é importante pensar em formas de humanizar essa interação e melhorar o nível de qualidade do tempo que passamos com a tecnologia.

Com a ganhadora do prêmio Nobel de Química, a cientista israelense Ada Yonath. Yasmim está à esquerda de Ada (na tribuna)

Com a ganhadora do prêmio Nobel de Química, a cientista israelense Ada Yonath. Yasmim está à esquerda de Ada (na tribuna)

Você também faz outras disciplinas e já fala quatro idiomas. Imagino que tem planos para utilizar esses conhecimentos futuramente. Pode nos adiantar alguma coisa?

Isso é o que mais gosto neste programa e nesta universidade: a possibilidade de escolher meus cursos e ser exposta a diversas faculdades do conhecimento. Já tive aulas nos Departamentos de Literatura, Cultura Digital e Filosofia. Também curso todas as disciplinas de Ciência da Computação e Matemática Aplicada, oferecidas pelo programa de Engenharia Elétrica. No verão vou estudar cybersecurity, pois é uma área que não pode ser ignorada com o crescimento exponencial de novas formas de tecnologia. Eventualmente, pretendo entrar em pesquisas – e indústrias – que combinem Neuropsicologia e Inteligência Artificial.

Como é seu dia a dia em Tel Aviv? Você encontra tempo para fazer outras atividades fora da universidade? Tem amigos, namorado, já visitou muitos lugares no país?

Passo a maior parte do tempo na universidade. Tento sair e me divertir quando dá. Tenho muitos amigos em Israel, principalmente os que fiz no EMIS, mas, como a maioria está atualmente cumprindo seu serviço obrigatório no exército, temos menos oportunidade de nos vermos. Sempre que posso visito o EMIS e tento participar de projetos para o desenvolvimento da escola e a cooperação da rede de ex-alunos. Já visitei o país todo, em parte com meu namorado israelense.

Recentemente fui aceita para estagiar como representante de uma Startup holandesa, a “Envision”, que pretende crescer seu mercado e popularidade em Israel – e futuramente no Brasil. Ela desenvolve um aplicativo que usa tecnologias de inteligência artificial para ajudar a integração de pessoas cegas e com baixa visão.  Esse será um novo desafio, e terei que dividir meu tempo entre estudos, visitas a hospitais, escolas especiais e grupos de apoio à comunidade deficiente visual em Israel. Além disso, também representarei o projeto em feiras Startup, coordenadoria estratégias preliminares de marketing, divulgação na imprensa etc.

Yasmim fez parte do grupo de alunos internacionais da Universidade de Tel Aviv que participou da cerimônia anual em homenagem aos soldados caídos nas guerras e vítimas de terrorismo

Yasmim fez parte do grupo de alunos internacionais da Universidade de Tel Aviv que participou da cerimônia anual em homenagem aos soldados caídos nas guerras e vítimas de terrorismo

 

Você veio ao Brasil quantas vezes depois que foi para Israel? Pensa em voltar para o país depois de concluídos os estudos?

Visitei o Brasil três vezes nos últimos quatro anos. Penso em retornar quando eu for capaz de gerar um impacto positivo, só que em escala maior do que já poderia fazer agora. Também devo aproveitar essa oportunidade ao máximo, já que é um privilégio um tanto raro para uma pessoa da minha origem socioeconômica. Quero voltar depois de “espremer todo o suco” que eu puder aqui fora. Mas retorno com projetos e iniciativas para fazer a diferença, inspirada na experiência que tenho aqui.

Quais dicas daria para estudantes do CPII que pensam em se aventurar como você e planejam estudar em Israel?

-: Alunos e ex-alunos do CPII, vocês são fortes, sagazes, talentosos e são a elite intelectual do Brasil. Não sigam a pressão dos outros, não sigam cegamente a loucura pré-vestibular, ou uma carreira que vocês não escolheram de verdade. Sigam seus desejos porque, quando se têm talentos como vocês, seus desejos são cheios de propósitos e podem mudar suas vidas e a de muitas outras pessoas. Não digo a ninguém que o caminho será perfeito. Eu ainda mal comecei o meu. Mas posso garantir que nunca, por um minuto, vocês vão pensar em trocar de caminho ou de vida.

 

 

 

 

Por Denise Moreira – Jornalista do Campus Humaitá II

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