Entrevista com o biotecnologista Luan Cruz, ex-aluno do CPII Caxias

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O biotecnologista Luan Cruz, na Suíça. (foto: arquivo pessoal)
O biotecnologista Luan Cruz, na Suíça. (foto: arquivo pessoal)
Na sexta e última entrevista que da série em que trazemos ex-alunos da área de Saúde, entrevistamos o biotecnologista Luan Firmino Cruz, que estudou no CPII Caxias de 2010 a 2012 antes de se formar em Ciências Biológicas: Biotecnologia na UFRJ de Xerém, também em Duque de Caxias. Esta entrevista é um pouco diferente das demais, pois Luan não trabalha na linha de frente, atendendo pacientes ou em unidades de saúde; entretanto, Luan trabalha com pesquisa voltada para o desenvolvimento de vacinas, e pedimos que ele nos ajudasse a entender um pouco mais sobre as perspectivas de se fazer uma vacina para a COVID-19 em breve. Além disso, ele faz doutorado-sanduíche (estágio de doutorado) na Suíça, e estava lá durante o início da pandemia, e também solicitamos para que ele contasse essa experiência para nós, tanto do ponto de vista acadêmico quanto pessoal.
Agradecemos ao Luan pela disponibilidade, mas também agradecemos aos demais ex-alunos (Tamara Paiva, Débora Chianello, Ruan Gambardella, Karina Fernandes e Isadora Lameirão) que se dispuseram a doar um pouco do seu tempo para nos esclarecer sobre questões tão importantes neste momento de crise. Deixamos aqui nossa profunda admiração e orgulho pelos profissionais dedicados que se tornaram, verdadeiros exemplos para nossos alunos e todos os servidores do CPII Caxias que puderam contribuir para sua formação como profissionais, cidadãos e seres humanos.
Confira a entrevista:

Como foi sua experiência na Suíça com a pandemia da COVID-19?
Luan Cruz: “Na Suíça o início da epidemia foi muito tranquilo, eu morava com um casal de idosos e a gente acompanhava com frequência a expansão do vírus ainda na Ásia. O dia em que foi noticiado o primeiro caso de COVID-19 na Itália, eu estava a caminho de Milão. Era uma sexta-feira e naquele dia foi descoberto que toda uma cidade na região de Lombardia (que é onde Milão está situada) foi fechada. Eu passei o final de semana em Milão, fazendo o possível pra manter meu rosto coberto. A partir do momento que voltei à Suíça é que fiquei mais preocupado. Lombardia fica ao norte da Itália, muito próximo à fronteira com a Suíça. Nas duas semanas seguintes eu fiquei 100% do tempo com máscara para preservar meus colegas de trabalho e também o casal com quem eu morava. Poucos dias depois da minha volta à Suíça, foram registrados os primeiros casos, começando na região ao sul do país, muito provavelmente por conta da grande quantidade de italianos que trabalham na região. Em uma semana o vírus já havia se espalhado por todos os cantos da Suíça. Durante 4 dias a Suíça adotou as seguintes medidas: dia 1- Distanciamento social de 1 metro, determinação de número máximo de 50 pessoas (contando os funcionários) em estabelecimentos como bares e restaurantes; dia 2- Distanciamento social de 2 metros, todo o comércio, incluindo supermercados e farmácias foram incluídos na lista de estabelecimentos com número máximo de pessoas permitidos em seu interior; dia 3- Estabelecimentos comerciais, incluindo bares e restaurantes, foram fechados, deixando apenas farmácias e supermercados abertos, ainda com limite no número de pessoas; dia 4 – o conselho federal decidiu fechar as escolas e universidades até o fim de abril. Nesse dia as coisas começaram a complicar. As pessoas se desesperaram e começaram a fazer estoques de comida e produtos de higiene, deixando os corredores dos supermercados vazios. Entretanto, as redes de supermercados já estavam cientes desse possível comportamento das pessoas e fizeram um estoque dos produtos com maior longevidade suficiente para 5 meses com reposição diária, ou seja, mesmo que todos os produtos à mostra fossem comprados, não haveria reposição até o dia seguinte. Com todas estas medidas tomadas e a população respeitando a quarentena e o distanciamento social, o esperado era que a curva se achatasse e que as atividades retornassem no início de maio, como de fato está acontecendo, meus colegas voltaram às atividades no laboratório no dia 04 de maio. Para mim, a parte mais difícil foi quando os países começaram a fechar as fronteiras, eu fiquei com receio de não conseguir retornar ao Brasil no futuro.”

 

O biólogo Luan Cruz com sua equipe no laboratório da UFRJ. (Foto: arquivo pessoal)
O biotecnologista Luan Cruz com sua equipe no laboratório da UFRJ. (Foto: arquivo pessoal)

Por que resolveu voltar ao Brasil?

Luan Cruz: “Apesar de meu contrato só terminar em agosto, eu não tinha a menor noção de como as coisas iriam se desenvolver no Brasil. Minha família estava muito preocupada comigo lá, especialmente minha mãe que é enfermeira. Em dado momento a CAPES enviou um memorando dizendo que os bolsistas poderiam retornar antecipadamente por conta da pandemia. Conversei com a minha família e com o meu orientador no Brasil e decidi que entre ficar na Suíça sem poder trabalhar e voltar ao Brasil para ficar com a minha família, a melhor opção era o retorno. No dia anterior ao meu retorno o meu voo foi cancelado, me deixando super ansioso, todas as minhas malas já estavam prontas, mas a CAPES resolveu tudo em algumas horas e eu consegui retornar com poucos problemas.”


Por que não temos ainda uma vacina pra COVID-19? É verdade que pode demorar até 2 anos pra desenvolvermos uma, como dizem alguns especialistas?

Luan Cruz: “Qualquer novo produto relacionado à saúde humana enfrenta uma série de etapas até a sua aprovação. Estas etapas costumam ser muito demoradas. Para começar, precisa-se decidir a composição da sua vacina. Os primeiros testes de toxicidade e eficácia são feitos in vitro, ou seja, com a ajuda de células em laboratório. O segundo passo é testar a toxicidade e eficácia in vivo, inicialmente os testes são feitos em animais e isto costuma levar alguns meses. Caso os níveis de toxicidade e eficácia sejam satisfatórios, os primeiros testes de toxicidade são iniciados em humanos. Este leva de alguns meses até anos para que seja determinada a toxicidade à longo prazo. Provada sua eficácia e baixa toxicidade, começam os testes clínicos em pessoas que vivem em áreas de risco. É importante ressaltar que este processo em situação normal leva, em média algo em torno dos 10 anos. Mas estamos vivendo em uma pandemia e com isso, temos urgência para o desenvolvimento de vacinas e terapias, por conta disso, o tempo de cada etapa deve ser encurtado. É importante lembrar também que caso a sua formulação falhe em alguma das etapas, a pesquisa volta à estaca zero. Portanto eu diria que o tempo de 2 anos até o desenvolvimento para uma vacina contra o COVID-19 é, de certa forma, otimista.”

 

Luan com sua equipe de pesquisa no laboratório da Suíça. (Foto: arquivo pessoal)
Luan com sua equipe de pesquisa no laboratório da Suíça. (Foto: arquivo pessoal)

Como foi sua experiência científica na Suíça? É diferente da sua experiência científica no Brasil?

Luan Cruz: “Minha experiência na Suíça foi incrível. Eu diria que temos algumas poucas diferenças entre a pesquisa no Brasil e na Suíça. A primeira delas é o investimento. A Suíça tem capacidade financeira astronômica se comparada ao Brasil, com isso eu tinha acesso a equipamentos e reagentes de última geração, o que facilita muito na hora de realizar um experimento. Além disso, a Suíça abriga diversas empresas de reagentes para laboratório e as que não estão por lá, estão espalhadas pela Europa, com isso, a compra de reagentes é incrivelmente rápida. Muitas vezes, comprávamos reagentes que chegavam no dia seguinte ou até no mesmo dia, muito diferente do que acontece no Brasil, onde temos que importar a grande maioria dos nossos reagentes, fazendo com que a entrega destes leve de 1 a 6 meses. E apesar dessa disparidade, me orgulha muito saber que no Brasil conseguimos produzir ciência de muita qualidade, mostrando que em termos de mão de obra e capacidade intelectual, não ficamos nem um pouco atrás.”


Foi difícil pra você sua trajetória acadêmica, da educação infantil ao doutorado?
Luan Cruz: “Não posso dizer que foi fácil, mas certamente não foi das mais difíceis. Felizmente meu pais nunca me deixaram faltar absolutamente nada, sempre tive o apoio emocional e financeiro necessário para me manter focado somente nos meus estudos. Eu estudei em escolas particulares durante a maior parte da minha vida acadêmica. Apesar disso, não estudei em colégios de renome antes de ingressar ao Colégio Pedro II, ao qual não posso deixar de evidenciar o papel fundamental na minha caminhada também. Certamente ele e todos os componentes da Unidade Caxias me ajudaram muito no acesso à Universidade Pública. Eu me formei em Biotecnologia e logo ingressei no Mestrado em Imunologia e Inflamação. Tive a oportunidade de terminar o mestrado em 1 ano ao invés de 2 e ingressei no Doutorado também no Programa de Imunologia e Inflamação. Hoje estou no meu terceiro ano de Doutorado que terá duração de 4 anos.”

Luan Cruz apresentando trabalho em um congresso científico. (Foto: arquivo pessoal)
Luan Cruz apresentando trabalho em um congresso científico. (Foto: arquivo pessoal)
Que conselhos você daria para os alunos do CPII que desejem trabalhar com pesquisa e chegar até o doutorado, como você?
Luan Cruz: “Na minha opinião, primeiramente você deve ter certeza que você quer seguir este caminho. Tenha ânsia por conhecimento, procure saber tudo que possa ser relevante para a sua pesquisa. Para alunos que pretendem seguir na pesquisa na área da saúde é fundamental aprender inglês. O inglês é a língua da Ciência, todas as principais revistas do mundo são escritas nesta língua. Aprenda também a lidar com frustrações; muitas vezes a sua hipótese não vai estar certa e você precisará formular uma nova; seus experimentos nem sempre vão funcionar; às vezes o seu orientador pode não enxergar muito bem o lado humano dos alunos e você pode ser visto somente como uma força de trabalho; o dinheiro disponível para a sua pesquisa pode não ser suficiente para tudo o que se deseja fazer. Tenha em mente também que é um longo percurso até o fim do doutorado e o doutorado não é, necessariamente o fim. É importante saber que o mercado científico no Brasil é bastante escasso, a maioria das oportunidades é fora do país. Essas são as principais dificuldades relacionadas a esta carreira, mas se você tem o desejo por ciência, essas dificuldades não serão problema. É extremamente gratificante produzir e divulgar conhecimento.”

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