Notas públicas

 

COLÉGIO PEDRO II

DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO INFANTIL

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                                                                           Em 27 de setembro de 2018

Nota do  Departamento de Educação Infantil sobre o caso do livro 

O Menino que espiava para dentro

Um conto clássico do folclore europeu narra, a certa altura, como um caçador abriu, com um machado, a barriga de um lobo e tirou de lá uma vovozinha. Aqui a história é “Chapeuzinho vermelho”. Já na história dos setes cabritinhos, uma personagem abre a barriga de outro lobo (Pobres lobos!) e a enche de pedras. Serão esses caninos alvos de perseguição pela literatura? A literatura incita a matança dos lobos? Ou  será que perseguidas são as moças que dormem por anos, enfeitiçadas ou envenenadas, à espera da salvação pelo beijo do príncipe encantado? Seriam essas histórias a razão de frustração experimentada pela espera do amor romântico?

Se simplesmente respondermos positivamente a estas perguntas ou se rechaçarmos a sua origem, se condenarmos por essas razões os livros que temos, encerraremos a potência da arte. Qualquer pergunta pode ser suscitada por um livro e qualquer pergunta advinda da arte é cabível. Exatamente por isso, precisam ser colocadas sobre a mesa, discutidas e pensadas. A recente polêmica em torno do livro O menino que espiava para dentro, de Ana Maria Machado, desvia o nosso olhar da pergunta que a própria polêmica coloca quando a resposta adotada é o banimento da obra, como mostrou as manifestações nas redes sociais. Toda vez que a solução para um problema social for respondida com um gesto que encerra a potência da arte, o que estamos exibindo não é cautela e responsabilidade, mas a nossa incapacidade para politizar a arte. Quando um tema como o suicídio ganha visibilidade a partir de uma obra de arte, não é a obra que precisa ser posta em cheque, mas nossos valores morais, o modo como formamos comunidade e os dispositivos produtores de infelicidade presentes na sociedade em que vivemos. A leitura que compreende uma passagem do livro de Machado como representação de uma cena de suicídio é uma entre inúmeras possibilidades de leitura do trecho e, compreendemos que esta perspectiva se inscreve no contexto histórico em que vivemos, onde estamos todos submetidos a dispositivos e produtos da indústria cultural que criam espectros de medo e insegurança nas famílias e educadores. Essa leitura, no entanto, limita a literatura quando a encerra em um sentido único. A descrição sensível feita pela autora sobre como crianças habitam e se movimentam entre os mundos da realidade e da fantasia é uma outra possibilidade de leitura entre muitas. Um livro aberto é sempre uma oportunidade para o pensamento, uma oportunidade para pensarmos o mundo em que estamos, para que possamos desnaturalizar alguns conceitos e inventar outros. Retirar os livros “polêmicos” das prateleiras é um gesto que se esquiva do pensar.

As crianças e a arte são a combinação mais potencialmente política que conhecemos. Política é a dimensão capaz de instaurar o novo no mundo. Política e pensamento, por isso, não podem ser dissociáveis. Não são e não serão no Departamento de Educação Infantil do Colégio Pedro II. Afirmamos a escola como um espaço de  pensamento e criação e acreditamos que os docentes, junto com as crianças e suas famílias, são responsáveis por fertilizar as oportunidades que cada tempo histórico abre aos seus contemporâneos. Fertilizar uma oportunidade significa para nós: não abrir mão de pensar junto, de estranhar um pensamento hegemônico, de questioná-lo. Se renunciarmos a este papel, operaremos sobre conteúdos vazios, formaremos trabalhadores e consumidores engajados apenas na preocupação com as suas subsistências e esvaziaremos nossas práticas de sentido crítico e criativo. A escola não pode servir à repetição porque a escola é feita de seres disponíveis e dispostos a inventar novos sentidos, pensar caminhos diferentes, criá-los e percorrê-los. A complexidade disso está no fato de que não podemos anular a história em prol da novidade e do mundo que virá, porque é no mundo que temos que precisamos abrir novas portas. E no mundo que temos as histórias matam os lobos, maçãs são envenenadas, e crianças se perdem na floresta ou nos seus mundos imaginários. Será a maneira como nos relacionaremos com essas narrativas que poderá ou não nos permitir contar outras histórias. 

Os professores do Departamento de Educação Infantil do Colégio Pedro II continuarão a ocupar o espaço de abertura para o novo, que não cessa de acontecer, diante daquilo que a humanidade produziu e, para isso, pensar e selecionar os materiais disponíveis às crianças também é nossa responsabilidade. Professores, famílias e a escola como um todo precisam estar atentos aos contextos e demandas do nosso tempo, precisam garantir espaços de diálogo, de escuta, de avaliação e reavaliação contínua de nossas escolhas. Quanto aos livros, precisamos muito deles, de muitos deles, precisamos dos livros que temos, dos que não temos e dos que ainda não foram escritos. Defendemos que deve ser com a comunidade que formamos com os profissionais, as crianças e suas famílias que decidiremos eticamente sobre os livros que vamos amar ou não, ler outra vez ou não, manter fechados ou abertos.

Departamento de Educação Infantil

 

 

Colégio Pedro II

Departamento de Educação Infantil

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Rio de Janeiro, 4 de setembro de 2018

Nota sobre o Incêndio no Museu Nacional

Quando uma turma com crianças de 5 anos desejou investigar os dinossauros e aprender sobre o passado de nosso planeta, nós a levamos para uma visita ao Museu Nacional. Quando crianças de 3 anos velaram e choraram a morte de uma borboleta, nós as convidamos para conhecer a coleção de borboletas que havia no Museu Nacional. Do mesmo modo, fizemos quando outro grupo de crianças descobriu com fascinação os mistérios do Egito antigo e seus corpos de humanos e animais embalsamados. Levar nossas crianças ao Museu Nacional era uma maneira de abrir para elas novos mundos. O Departamento de Educação Infantil lamenta profundamente o triunfo de uma forma de governabilidade que não reconhece o ardil no qual colocamos nossas crianças quando seus gestos de negligência provocam o estreitamento das possibilidades de criar e conhecer. Confiamos, no entanto, que as crianças seguirão fazendo política melhor que nós, adultos:

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