Projeto identidades Suburbanas promove “Ocupação Nise no CP2”

Publicado em

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.03 (4)

No último dia 23, sexta-feira, aconteceu na biblioteca do campus Engenho Novo II o evento “Ocupação Nise no CP2”. Trata-se de mais uma ação do Projeto identidades Suburbanas, vinculado ao núcleo de Arte e culturas do campus Engenho Novo II, com o apoio da Diretoria de Culturas do Colégio Pedro II.

A cerimônia festejou tanto os 70 anos do campus Engenho Novo quanto o aniversário do Museu do Inconsciente, que está completando a mesma idade.

Estiveram presentes a vice-diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, Priscilla Hauer, além de integrante da Seção de Terapêutica Ocupacional do Museu do Inconsciente, Glória Thereza Chan. O evento também contou com a participação da museóloga Mayara Motta e do jornalista Marcelo Valle, do Espaço Travessias. Wagner Trancoso foi o artista convidado a integrar o ciclo das palestras.

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.03 (1)

 

A cerimônia foi aberta pelo professor Alexandre Guimarães, do Departamento de Artes Visuais, responsável pelo projeto. O docente apresentou a todos os integrantes que compuseram a mesa e falou a respeito da proposta do Identidades Suburbanas.

Em seguida, assumiu a palavra a Diretora Geral do Campus Engenho Novo II, Carolina Medeiros. Ela saudou a todos da mesa, aos alunos e professores presentes e agradeceu a parceria com o Instituto Nise da Silveira para que o evento pudesse acontecer.

Coube aos alunos Andrea Queiroz e Walter Veridiano, do 1º ano, a realização de apresentação cultural. Ao som da voz de Andrea e do violão de Walter, os presentes se emocionaram com a execução da canção “O Bêbado e o Equilibrista” e da “Balada do Louco”.

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.03 (2)

Retomando os discursos, a vice-diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, Priscilla Hauer, falou como está configurada a instituição nos dias de hoje. Segundo ela, não há mais pacientes de longa permanência, havendo o último deles dado saída em 2021. De acordo com Priscilla, o fechamento do hospital sanatório, num contexto da pandemia, foi algo de grande relevância. A vice-diretora esclareceu que a grande maioria dos pacientes até então internados migrou para os serviços residenciais terapêuticos, estes consistindo em moradias alugadas pela prefeitura para inclusão dos usuários dos serviços de saúde mental. Priscilla encerrou sua fala chamando os estereótipos acerca de saúde mental de “manicômio social”, que, segundo ela, aprisionam tanto quanto o manicômio físico composto por paredes.

Logo após, Marcelo Valle dividiu com todos o trabalho realizado pelo Espaço Travessias. De acordo com ele, o projeto surgiu a partir do Hotel da Loucura, que também fica no instituto Nise da Silveira. Jornalista, Marcelo explicou que a reforma psiquiátrica está abrindo possibilidades para que profissionais de diversas áreas possam se envolver com a temática da saúde mental. O Travessias é um espaço aberto de promoção de saúde mental que oferece atividades culturais variadas para o público em geral.

Glória Chan, da Seção de Terapêutica Ocupacional do Nise da Silveira, abriu sua palestra se declarando ex-professora do Departamento de Desenho e Arte do Colégio Pedro II. Na sequência, Glória falou sobre as diversas vertentes do trabalho realizado no instituto, como os ateliês e o bloco Loucura Suburbana, e contou um pouco sobre o histórico da instituição, desde o antigo hospício Pedro II. Glória apresentou brevemente a história de Adelina Gomes, uma das homenageadas nos grafites que estão sendo pintados no Campus Engenho Novo II, e que não pôde ter acesso às residências terapêuticas em sua época, passando grande parte de sua vida no hospício, onde também faleceu.

Mayara Motta foi outra convidada que revelou logo no início da fala seu vínculo com o Colégio Pedro II. Ex-aluna do campus Realengo e atualmente museóloga, abordou, dentre outros aspectos, um breve relato sobre sua profissão na área de museologia, e se debruçou sobre a história do Museu de Imagens do Inconsciente, onde também estagiou.

 

O IDENTIDADES SUBURBANAS

O projeto Identidades Suburbanas é uma parceria entre o Departamento de Artes Visuais (DAV), o Departamento de Português e Literaturas de Língua Portuguesa (DPLLP) e o Departamento de Educação Musical (DEM), com o apoio da Diretoria de Culturas – PROPGPEC.

É coordenado pelo professor Alexandre Guimarães, do DAV. Integram também a equipe os professores Jorge Marques, do DPLLP, e Cecília Vanessa, do DEM.

O objetivo geral da proposta é dar perspectiva de reconhecimento de personalidades da cultura nacional, associadas ao subúrbio, sobretudo à zona norte da cidade do Rio de Janeiro, por meio da expressão visual do grafite.

O projeto é transdisciplinar e se propõe a contribuir em oficinas e rodas de conversas para o debate sobre a importância da arte pública junto ao cotidiano dos estudantes.

Alexandre conta que, por conta dos 70 anos do campus Engenho Novo II, achou-se oportuno a criação deste projeto. Segundo ele, o intuito é de valorizar as personalidades que fazem parte das áreas adjacentes e o ethos do subúrbio, presente nas canções de Dona Ivone Lara, na literatura de Lima Barreto e também no Instituto Municipal Nise da Silveira.

 

OS GRAFITES

O evento apresentou também os grafites que estão sendo pintados no interior do campus. Ao todo, são três figuras retratadas: Lima Barreto, Dona Ivone Lara e Adelina Gomes.

A escolha não foi ao acaso. Alexandre Guimarães revela que é importante que os alunos tenham contato com estas personalidades, até mesmo por uma questão de valorização da cultura periférica e como afirmação de pertencimento ao subúrbio carioca.

O escritor Lima Barreto viveu grande parte de sua vida no subúrbio carioca, no bairro de Todos os Santos. Dona Ivone Lara também era “figura carimbada” da zona norte do Rio, tendo se mudado para Madureira aos 24 anos de idade. Adelina Gomes, por sua vez, apesar de ter nascido na cidade de Campos dos Goytacazes, no interior do estado, viveu grande parte de sua vida no então Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro.

O artista responsável pela execução dos murais é Wagner Trancoso. Ele detalha um pouco melhor sobre a característica de seus trabalhos atuais, e relata que a primeira vez que foi convidado a grafitar um rosto humano, tinha que retratar Paulo Freire, a partir de um convite do Espaço Travessias, no Nise da Silveira. Como sua marca já era colocar casinhas nos desenhos em que fazia, lhe veio a ideia de colocar estes detalhes em partes sombreadas no próprio rosto retratado. Ideia que, segundo ele, deu muito certo.

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.02

Mas nem sempre houve esse reconhecimento. Wagner relembra que teve que lutar bastante contra o preconceito que ainda existe em torno da arte de rua, sobretudo no início de sua carreira. Em sua primeira pintura de rua, o artista conta que não teve muita sorte, pois, achando que estivesse fazendo algo totalmente legalizado, decidiu intervir por conta própria em um muro de uma estação ferroviária. Como resultado, os guardas da estação o abordaram e queriam pegar suas tintas.

Alexandre Guimarães revela que ainda haverá solenidade para a inauguração dos painéis, mas adianta que o objetivo que se pretende alcançar é de que a pintura mural do Wagner Trancoso se torne patrimônio da escola, e que muitas ações pedagógicas possam acontecer junto a esse muro, promovendo, assim, um corredor cultural nesse espaço.

Para ele, é imprescindível que a educação dê espaço às vozes do subúrbio, porque são vozes importantes que precisam ser ouvidas, valorizadas e permanentemente visualizadas. Alexandre acrescenta que isso, sem sombra de dúvidas, acontecerá com as pinturas murais de Wagner.

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.02 (1)

WhatsApp Image 2022-09-26 at 21.32.03

 

A PARCERIA COM O INSTITUTO NISE DA SILVEIRA

O Instituto Nise da Silveira está localizado no bairro do Engenho de Dentro, e por isso possui uma interface bem próxima com o Campus Engenho Novo, não somente geográfica, mas também sociocultural.

Priscilla Hauer, vice-diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira e que palestrou durante o evento, ressalta os objetivos comuns entre as duas instituições, pois em ambas há um compromisso com a transformação social, com uma sociedade diferente, inclusiva, justa e igualitária.

Alexandre Guimarães comenta que é com alegria que o Colégio Pedro II recebe o Instituto Municipal Nise da Silveira, comemorando junto com eles 70 anos: o do Campus Engenho Novo II e o do Museu de Imagens do Inconsciente. O docente explica que foi desenvolvido um trabalho de acolhimento aos alunos durante a pandemia e o instituto foi vital neste processo.

A vice-diretora Priscilla Hauer falou também sobre a interseção entre arte, saúde mental e urbanidade, devendo existir a possibilidade da ocupação da cidade, em todas as manifestações e em toda a sua diversidade, tanto no que se refere ao campo da arte quanto ao campo da saúde mental. Para ela, a arte é a expressão em todas as suas possibilidades.

Priscilla complementa agradecendo o convite e enfatizando a importância deste tipo de diálogo estar dentro dos espaços escolares, pois, segundo ela, é necessário formar pessoas de uma maneira que se discuta que mundo queremos construir, com diversidade, inclusão e pluralidade.

 

Fotos e reportagem: Guilherme Neves

Categorizado em Alunos, Biblioteca, Eventos

Assuntos:

Tema desenvolvido pela Comunicação Social do Colégio Pedro II para WordPress