Professor da PUC fala sobre o surgimento das favelas do Rio na Primeira República

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Alunos do Humaitá II assistiram na segunda-feira, 17 de junho, à palestra  “Aldeias do Mal”: a História das Favelas na Primeira República”, com o professor de História da PUC-Rio Rômulo Mattos, que abordou, entre outros temas,  como a imprensa da época já estigmatizava os primeiros morros ocupados no Rio de Janeiro.

Foi a partir do final do século XIX, mais precisamente no ano de 1893, com a demolição do cortiço conhecido como Cabeça de Porco, na região onde hoje é a central do Brasil, centro do Rio, que o morro próximo passou a ser ocupado pelos moradores despejados. “Acredita-se que cerca de mil pessoas viviam no cortiço”, informou o professor, lembrando que, em todo o Rio, aproximadamente 130 mil moradores residiam nos cortiços e estalagens naquele período.

Rômulo Mattos é professor de História da PUC-RJ
Rômulo Mattos é professor de História da PUC-RJ

A demolição dos cortiços na região central do Rio foi estimulada por três fatores: a higienização, que partiu da crença de que o Brasil deveria se tornar um pais civilizado aos moldes da Europa e dos Estados Unidos; a segurança, porque eram nessas moradias que se encontram as chamadas classes perigosas; e a especulação imobiliária.

O Cabeça de Porco, por exemplo, deu lugar ao primeiro túnel construindo no Rio, o João Ricardo. “É dessa época a primeira grande crise habitacional do município. A população do Rio aumentou em 90%, com a vinda dos negros libertos e de imigrantes, enquanto o número de moradia ficou em 60%”, comparou o professor.

Canudos

Segundo Rômulo, alguns moradores do cortiço demolido receberam autorização do prefeito da época, Barata Ribeiro, para construírem no morro  da Providência. Alguns anos depois, em 1897, o local recebeu soldados que lutaram na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia. “Lá, esses soldados viviam em lugar conhecido como Morro da Favela, que recebeu o nome de uma planta da caatinga muito comum na região, que se chama favela”, explicou Rômulo.

A palestra foi uma realização da Equipe de Sociologia e do Soep do HU2
A palestra foi uma realização da Equipe de Sociologia e do Soep do HU2. Na primeira fila, à direita, o professor Afrânio de Oliveira Silva, ao lado do coordenador da Equipe de Sociologia, Marcelo Costa

A crônica policial da época descrevia o morro da Providência, ou da Favela, como sendo um lugar violento. Por consequência, promovia também o estigma dos moradores locais, o que pode ser constatado em periódicos como o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, maior veículo do período.

Reformas

As reformas do centro do Rio ocorridas no início da década seguinte, conhecidas como Pereira Passos, nome do prefeito da época, agravaram a crise habitacional e promoveram uma segregação urbana ainda maior, levando à primeira grande expansão das favelas do município.

Por essa ocasião, as favelas passaram a ser vistas também como o lugar onde moram os pobres, ou seja, a classe trabalhadora, e o estigma diminui por um tempo. “Mas, a partir de 1907, a imprensa volta a atacar as favelas e seus moradores”, observou Rômulo. Já na década de 20 o nome favela passou a designar outros locais que tinham como características a pobreza e a violência.

Para Rômulo, o Morro da Favela sofria mais ataques por parte da imprensa pela sua proximidade com a região portuária do Rio, que concentrava a maioria dos negros do município. “As críticas enfáticas a esses locais se justificam pela ideia ainda vigente de se construir uma Europa no Rio de Janeiro”, concluiu Rômulo.

Convite

A aluna Luana Legg fez o convite ao professor quando participou do 'PUC por um dia'
A aluna Luana Legg fez o convite ao professor quando participou do ‘PUC por um dia’

A vinda do professor Rômulo Mattos ao Humaitá II surgiu a partir da visita que a aluna da 3ª série Luana Legg fez à PUC este ano. “Eu participei do projeto PUC por um dia e, durante uma palestra do Rômulo, falei do ‘Aldeias do mal’ sem saber que ele era o autor desse estudo”, contou a estudante.

O estudante da 3ª série Gabriel Nunes destacou a importância do tema em sua própria vida. “Eu aprendi um pouco mais sobre o Morro da Providência, lugar que morei quando era criança. Não tinha conhecia essa história até começar a estudar Sociologia no Colégio Pedro II”, observou.

O evento foi uma realização da Equipe de Sociologia e do Setor de Orientação Educacional e Pedagógica (Soep) do Campus Humaitá II. Para o Psicólogo do Soep Antônio Carlos Villela, a palestra foi muito reveladora.  “Nascido e criado na região do Morro da Providência, fiz uma viagem no tempo e relembrei dos locais citados pelo professor Rômulo”, ressaltou.

Rômulo com alunos do HU2 e o coordenador da Equipe de Sociologia Marcelo Costa
Rômulo com alunos do HU2 e o coordenador da Equipe de Sociologia, Marcelo Costa

Quem é Rômulo  Mattos

O professor de História  leciona temas referentes ao Brasil Republicano e também oferece cursos no projeto “PUC por um semestre”, voltado para o Ensino Médio. Desenvolveu pesquisas na área da História Urbana do Rio de Janeiro, com ênfase na História das Favelas na Primeira República. Recentemente, tem pesquisado História da Música Popular no Brasil, tendo publicado livros sobre rock brasileiro e artigos sobre Historiografia da MPB.

Setor de Comunicação do Campus Humaitá II

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