Inclusão de aluno com surdez é desafio e aprendizado no HU2

Publicado em

Felipe cartela2

Setembro é um mês especial para os portadores de deficiência auditiva e para todos os que militam nessa área. Além da instituição do Setembro Azul, mês da visibilidade da comunidade surda brasileira, na quinta-feira,  26, comemora-se o “Dia Nacional do Surdo”. Recentemente a Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) declarou o 23 de setembro como o “Dia Internacional das Línguas de Sinais”,

Desde 2015, a inclusão de um estudante com diagnóstico de surdez passou a ser realidade no Campus Humaitá II.  Além do problema auditivo, Felipe Nascimento também apresenta atetose, um distúrbio neuromotor caracterizado por movimentos involuntários.

Vídeo: Felipe se apresenta em Libras como aluno do CPII: “Meu nome é Felipe. Eu gosto de estudar no CP2. Os professores são bons. E eu me sinto animado.”

https://youtu.be/lyg4_q94EPU

Com Felipe veio também o tradutor e intérprete de libras Thiago Carlos da Silva, que já acompanhava o aluno no Campus Humaitá I. Thiago divide com o colega Alexandre Mattos a tarefa de traduzir e interpretar as aulas e demais atividades acadêmicas para Felipe.

Felipe, no 6º ano, com o tradutor e intérprete de Libras Thiago
Felipe, no 6º ano, com o tradutor e intérprete de Libras Thiago

O trabalho realizado pelos dois tradutores e intérpretes requer estudo prévio, uma vez que alguns sinais são bem específicos de cada disciplina. “De repente, eu me vi procurando os sinais para palavras como carboidratos, proteínas, sais minerais e vitaminas, que não uso no meu dia a dia”, conta Thiago.

Segundo Alexandre, a busca por sinais novos é constante nas atividades de tradução e interpretação. “ Fazemos isso o tempo todo porque é difícil conhecer todos os sinais que existem”, explicou. “Estamos sempre estudando”, acrescentou Thiago.

Por ter mais tempo de dedicação a Felipe, Thiago acompanhou de perto o desenvolvimento do estudante. “Ele evoluiu em todos os sentidos, e isso se deve muito ao aprendizado da língua de sinais”, ressaltou, lembrando que Felipe possui um raciocínio lógico e matemático acima da média.

Felipe com os tradutores e intérpretes deLibras Alexandre e Thiago, na entrega do Delf
Felipe com os tradutores e intérpretes deLibras Alexandre e Thiago, na entrega do Delf

Segundo Thiago, Felipe também gosta muito de estudar línguas estrangeiras. No ano passado, o estudante participou do projeto Delf Scolaire, que prepara alunos para a realização do Delf, exame de proficiência em Francês, tendo recebido o diploma em julho deste ano.

Alexandre faz avaliação idêntica à do colega. Segundo ele, Felipe entende bem os conteúdos estudados, e os professores em geral ficam satisfeitos com o desempenho dele. “Além disso, ele é muito aplicado, dedicado e assíduo”, observou.

Processo

Na avaliação de Thiago, a evolução de Felipe se deve muito ao Colégio Pedro II, que sempre reconheceu o estudante enquanto indivíduo e sujeito social. Mas ele ressalta que o trabalho desenvolvido com o aluno nem sempre foi um processo fácil.

“Quando vim para o Napne do Humaitá II, não havia uma metodologia definida para trabalharmos com o Felipe. Mas sabíamos que a escola deveria se adaptar a ele, e não o inverso. Tivemos de construir isso juntos”, comentou, lembrando do apoio que recebeu na época da então chefe do Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Específicas (Napne), Célia Nonato.

Felipe se apresenta em Libras durante entrega do Delf
Felipe se apresenta em Libras durante entrega do Delf

No ano passado, enquanto Thiago ficou à disposição da Seção de Educação Especial da Pró-Reitoria de Ensino (Proen), Felipe foi acompanhado por duas tradutoras e intérpretes de libras contratadas: Fátima Vieira e Jacquline Cantelmo.

Artigo

Um dos professores de Felipe, que hoje está na 1ª série do Ensino Médio, é Ricardo Alves, de Educação Física. O docente conta que já havia trabalhado com o aluno antes, no 6º ano. “Eu fiz um trabalho de psicomotricidade na época com aluno atendidos pelo Napne, e Felipe era um deles”, comentou.

O trabalho com Felipe rendeu um artigo, apresentado em 2016 no Congresso Brasileiro de Psicomotricidade, no Rio Grande do Sul.  “Felipe – Um movimento para além do motor” foi escrito em parceria com os então alunos do curso de  pós-graduação em Educação Psicomotora do Colégio Pedro II, do qual Ricardo é coordenador até os dias de hoje: Roberta Carollo Salgado e Natanael Ferreira Filho.  O artigo mostra como a psicomotricidade pode contribuir para o processo de inclusão. No ano seguinte, Ricardo se tornou o professor da turma do Felipe.

Ricardo Alves
Ricardo Alves escreveu um artigo sobre  psicomotricidade e inclusão a partir da sua experiência com Felipe

Ricardo trabalha com psicomotricidade há mais de 20 anos e avalia a evolução do aluno nos últimos quatro anos como muito positiva. “Felipe é capaz de fazer qualquer atividade que envolve motricidade, seja com cordas, bolas ou corporais”, afirma. Segundo o docente, o relaxamento é hoje a principal demanda do aluno, para diminuir a rigidez tônica que atrapalha a coordenação dos seus movimentos.

Para Ricardo, o principal desafio da escola em relação ao Felipe é de outra ordem e passa por uma maior interação do estudante com os demais alunos. “Na minha avaliação, faz parte do trabalho do professor sensibilizar os alunos para a importância de interagirem com um colega com necessidades especiais”, opina. Na opinião do professor, Felipe já está incluído na escola. “Nosso trabalho agora é promover cada vez mais a interação dele com sua turma”, acredita.

“O Felipe deve ser visto como um motivo de aprendizado. Sua presença na turma dá a cada aluno a oportunidade diária de aprender sobre interação humana”, concluiu o professor de Educação Física.

Felipe e seus colegas de turma. Alguns estudam com ele desde os tempos do Pedrinho
Felipe e seus colegas de turma. Alguns estudam com ele desde os tempos do Pedrinho

Exemplo

Professora de Francês de Felipe, Lucienne Leão afirma ser uma honra lecionar para o estudante. “Ele consegue, apesar de suas limitações, avançar sempre. Acompanha bem as aulas, com a ajuda do Tiago e do Alexandre”, ressaltou.

“Mas acho que vai muito além disso. Não sei se é impressão minha, mas ele sempre me espera na porta da sala. Parece demonstrar que gosta de mim”, observou a docente, que afirma dar sempre uma atenção especial para o aluno. “Pergunto aos intérpretes se ele está acompanhando a aula e se precisa de atenção mais específica”, enfatizou. Mas, segundo Lucienne, Felipe sempre se sai muito bem e somente faz perguntas quando necessário.

“No que diz respeito ao aspecto emocional, acho que ainda temos muito a aprender e muito a fazer. Vejo Felipe muito isolado. A turma não me parece muito empática. Mas para mim, ele é um exemplo”, comentou.

Felipe sempre se diz muito feliz em estudar no Colégio Pedro II. Ele começou ainda no 1ª ano do Ensino Fundamental, no Pedrinho (Campus Humaitá I).  Diz que gosta muito dos professores, dos intérpretes de libras e dos colegas também. Seu melhor amigo é o Gabriel Negreiros.

Gabriel Negreiros se comunica com o colega por meio dos sinais de libras, gestos e, em alguns casos, pede ajuda aos intérpretes
Gabriel Negreiros se comunica com o colega por meio dos sinais de libras, gestos e, em alguns casos, pede ajuda aos intérpretes

Gabriel disse que sente muita empatia pelo colega. Disse que consegue se comunicar com o Felipe com alguns sinais de Libras – ele participou de uma oficina de Libras no ano passado no Humaitá II – mas que usa outros gestos também e, em alguns casos, acaba pedindo ajuda aos intérpretes. “Seria legal se tivéssemos curso permanente de libras no colégio”, opinou.

Veja mais fotos!

 Aprendizado

 A diretora pedagógica do Humaitá II Claudia Monteiro lembra que a inclusão de alunos surdos em classe comum tem alcançado espaço nas escolas e vem se tornando realidade a cada dia.

Segundo a diretora, a vinda do Felipe motivou o campus a repensar as práticas pedagógicas de forma a possibilitar ao aluno o aprendizado dos conteúdos expostos em sala de aula. “Além disso, era preciso que trabalhássemos aspecto sócio-emocional, implícito nesta tarefa, em uma turma com aproximadamente 30 alunos”, enfatizou.

“O nosso principal desafio foi o de pensarmos como poderíamos oferecer recursos didáticos e pedagógicos ao Felipe que, apesar da questão inerente a ele, sempre apresentou desejo de aprender, sensibilidade, disciplina e muita força”, ressaltou a diretora, lembrando que essas qualidades certamente levaram o aluno a evoluir em todos os sentidos, inclusive demonstrando raciocínio lógico e matemático acima da média.

Felipe com colegas, intérpretes, professores e técnicos do HU2
Felipe com colegas, intérpretes, professores e técnicos do HU2

Para Cláudia, o trabalho realizado pelos tradutores e intérpretes de libras que o acompanharam em diferentes momentos ao longo destes anos foram imprescindíveis para a inclusão do aluno. “O trabalho desenvolvido em conjunto entre professores e técnicos trouxe à luz a possibilidade de perspectivas diferentes aos métodos educacionais”, observou.

Ainda segundo Cláudia, a inclusão do aluno surdo foi um processo difícil, mas que se tornou uma excelente oportunidade de aprendizado para toda a comunidade acadêmica, uma vez que fez-se necessário redimensionar os recursos didáticos e pedagógicos oferecidos, buscando garantir a interação entre as necessidades individuais do aluno e a proposta oferecida pelo colégio.

“O Felipe é para nós um orgulho e um presente, por nos propiciar reflexões sobre as necessidades de mudanças necessárias na escola, que busquem atender às demandas da diversidade com o objetivo de efetivarmos a inclusão na sociedade cultural e científica por meio da escola pública”, avaliou a diretora pedagógica.

Fátima (equerda) e Jacqueline Foram tradutoras e intérpretes de Felipe em 2018
Fátima (esquerda) e Jacqueline Foram tradutoras e intérpretes de Felipe em 2018

 Depoimentos

 Ano passado tive o grande prazer de atuar como intérprete de Libras no Campus Humaitá do Colégio Pedro II. O prazer ficou ainda maior quando conheci o Felipe. Trabalhar com ele foi uma grande honra! Por vezes pensamos que nossa atividade de intérprete irá favorecer mais ao surdo do que a nós mesmos. Engano isso! Esse tempo foi para mim de grande aprendizado e crescimento. Esse jovem tão especial fez-me repensar ainda mais minha postura e atuação.  Tempo de alegria e grandes desafios. Tempo de firmar parceria, mediação, amizade, respeito e consciência. O Felipe me ajudou a fortalecer mais a humanização em minha profissão. Não basta ser interprete; preciso me recolocar em cada experiência. Preciso me humanizar. Olhar para o outro como se olhasse para mim. Fazer e desfazer. Construir para logo depois descontruir. Tudo em favor desse outro de quem nos tornamos a voz.Uma grande honra ter estado com o Felipe! Uma honra ter estado no Colégio Pedro II! Parabéns pelo mês do Surdo aos dois! Ao Primeiro pele determinação, garra e força. Ao segundo porque abriu espaço para que tais qualidades pudessem florescer”  – Jacqueline Cantelmo foi tradutora e interprete de libras no Humaitá II em 2018.

“O ano de 2018 foi desafiador, pois além de fazer a tradução em sala de aula, eu e Jacqueline, minha dupla e parceira de trabalho, tínhamos o objetivo de inserir o Felipe como surdo nos espaços da escola e fomentar o uso da Libras  por aqueles que tinham contato com ele. O retorno da escola foi incrível! Grande parte de alunos e servidores se interessaram por aprender um pouco mais sobre a Língua Brasileira de Sinais, a própria turma do aluno ensaiou uma música em Libras para inseri-lo no Festival de Música do Humaitá II, sem falar no apoio e parceria dos professores, que fizeram com que o resultado superasse nossas expectativas. Ao longo do trabalho, percebemos que Felipe ganhou mais confiança e autonomia para interagir com os professores, servidores e alunos, o que dispensava nossa presença como intérpretes em alguns momentos. Claro que ainda não é o ideal para ele, mas como escola estamos caminhando e construindo um espaço onde o surdo e aquele que tem suas especificidades possam conviver e se desenvolver como os outros alunos. Um exemplo disso é a escola reconhecer e comemorar essa data tão importante para a Comunidade Surda que é 26 de Setembro,  Dia do Surdo. Maria de Fátima Silva Vieira foi tradutora e interprete de libras no Humaitá II em 2018.

Por que ‘Setembro Azul’

Azul era a cor que identificava os deficientes em Auschwitz. Depois em meados de 80, os surdos adotaram o azul como cor de luta. Desde então, comemora-se o Setembro Azul, um movimento nacional da luta da pessoa com deficiência.

 

 

 

Logo_Rodapé_Comunicação Social Humaitá II

Categorizado em NAPNE, Notícias

Assuntos:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Tema desenvolvido pela Comunicação Social do Colégio Pedro II para WordPress