Palestra sobre prevenção ao suicídio reúne pais, responsáveis e servidores no HU2

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Apesar de ser um tema tabu, o suicídio precisa ser debatido. Mais do que isso, é necessário que as informações sobre o assunto sejam mais conhecidas por todos. Esse foi um dos enfoques da palestra Romper o silêncio e preservar vidas: o verdadeiro sentido do setembro amarelo”, realizada pelo Setor de Orientação Educacional e Pedagógica (Soep) do Campus Humaitá II no dia 25 de setembro e que teve como público-alvo servidores do colégio, pais e responsáveis.

As palestrantes convidadas foram a Laura Sarmento, psicanalista e supervisora clínica e institucional da Rede de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, e Juliana Pimenta, psiquiatra da Infância e Adolescência do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (Capsi- Carim), do Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A diretora-geral do HU2, Soraya Sabah, falou da importância de se debater o tema
A diretora-geral do HU2, Soraya Sabah, falou da importância de se debater o tema

A diretora agradeceu ao Soep pela inciativa, observando que “o título da palestra já mostra o caminho a seguir no combate ao suicídio: o do diálogo”. O psicólogo do Soep, Antonio Carlos Villela, afirmou ser o suicídio um tema delicado, mas que precisa ser debatido. “A proposta desse evento é integrar os pais e responsáveis à escola para realizar esse debate”, pontuou.

Sinais

A psiquiatra Juliana disse que, em 90% dos casos de suicídio, existe algum transtorno mental associado e que não existe uma explicação única para o fato. Entre os fatores desencadeantes (fatores associados), destacam-se a depressão , transtorno psicológico e a história familiar.  O meio em que o jovem vive, além de casos de abuso sexual e físico na infância e o assédio moral, também estão entre as causas relacionadas ao suicídio.

Fatores sociais também podem desencadear formas variadas de sofrimento no período da adolescência. Pressão por desempenho, sexualidade, bullying, uso de substâncias psicoativas, ideais estéticos são alguns desses fatores que podem ser a causa dos conflitos entre os mais jovens.

No adolescente, segundo a médica, queixas psicossomáticas frequentes, como dores de cabeça, no peito ou abdominal e mesmo a perda de energia podem ser alguns sinais de depressão. O abandono escolar pode ser também um indicativo de depressão.

Juliana falou dos sinais que pessoas com tendências ao suicídio costumam apresentar
Juliana falou dos sinais que pessoas com tendências ao suicídio costumam apresentar

Juliana observou ainda que crianças e jovens sempre brigaram entre si, mas essas desavenças ganharam outras proporções com a internet. A rede mundial de computadores é outro ponto preocupante nessa questão, uma vez que existem sites de grupos que ensinam técnicas para alguém se suicidar. “Por isso é importante sabermos o que nossos filhos estão vendo na internet”, pontuou.

Entre as principais formas de suicídio, as mais comuns são as armas de fogo, intoxicação e enforcamento. As duas primeiras são formas que podem ser mais facilmente prevenidas, observou a psiquiatra. “É possível tirar o acesso dos jovens a essas duas situações letais”, concluiu.

A médica também chamou a atenção para algumas características psicológicas que estariam relacionadas ao suicídio, principalmente entre jovens: desesperança, pensamento de tudo ou nada, excesso de pensamento e mudanças comportamentais que incluem isolamento, inclusive dos amigos e colegas, e recusa de ir à escola.

Juliana alertou ainda para comportamentos dos pais que podem estar relacionados aos sofrimentos dos adolescentes, como o cuidado excessivo com os filhos, a exigência de que sejam perfeitos ou mesmo a falta de atenção. “Os pais também estão muito ocupados com as suas próprias atribuições do dia a  dia”, ressaltou.

 

A palestra tinha como público-alvo os pais, responsáveis e servidores do HU2
A palestra tinha como público-alvo os pais, responsáveis e servidores do HU2

ROC

A prevenção ao suicídio envolve algumas etapas importantes, segundo Juliana, e que podem ser resumidas pela inicial ROC: reconhecer, ouvir e conduzir. Além de reconhecer os sinais, é importante saber abordar a pessoa com propensão ao suicídio. “Saber ouvir é muito importante e essa escuta deve estar livre de julgamentos”.

A experiência clínica mostra que também não funciona ficar falando frases positivas na tentativa de minimizar as queixas.   A autoajuda, nestes casos, se mostra ineficaz.  O mais seguro é conduzir ou persuadir a pessoa a procurar  um profissional  ou serviço de saúde que vai promover o tratamento adequado de cada indivíduo. “Grande parte dos adolescentes que comete suicídio não passaram por um tratamento especializado”, lamentou Juliana.

O papel da escola é fundamental no combate e prevenção ao suicídio. Rodas de conversa, divulgação de conteúdos educacionais e orientar os próprios alunos a conversarem com os colegas que estão passando por conflitos. “Muitas vezes o adolescente fala com os colegas o que não consegue verbalizar para os pais e professores”, ressaltou Juliana.

Antonio Carlos destacou a importância de criar-se uma “rede protetora”, na qual as informações pudessem circular entre os amigos mais próximos, parentes do jovem e os profissionais que mantêm contato com ele.

Mapeamento

Laura Sarmento falou sobre a atuação das Clínicas da Família no combate à depressão, uso de drogas e suicídio. Segundo a psicanalista, desde 2014 o município passou a atuar de forma a reduzir em 20% os casos de suicídios no Rio de Janeiro. A psicanalista observou, no entanto, que dificilmente o adolescente busca atendimento por conta própria. “Geralmente eles são encaminhados pela escola ou são levados pela família”, afirmou.

Laura Sarmento ressaltou a importância dos momentos lúdicos entre pais e filhos
Laura Sarmento ressaltou a importância dos momentos lúdicos entre pais e filhos

A psicanalista falou da importância das Clínicas da Família no combate e prevenção ao suicídio, uma vez que essas instituições são territorializadas e conseguem fazer um mapeamento dos casos com mais eficácia.  Ela informou que os casos de violência autoprovocadas (como as automutilações que estão se tornando frequentes entre adolescentes) passaram a ser de notificação compulsória desde 2011, o que vem contribuindo para a ampliação do tratamento das pessoas propensas ao suicídio.

Ainda assim, quando se trata do país como um todo, o que se observa é que não estamos avançando na prevenção ao suicídio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), as taxas de suicídio cresceram 7% em 2016 (último ano da pesquisa) em relação a 2010, contrariando a tendência mundial, que foi de uma redução de 9,8% dos casos.

O aumento de casos de suicídio entre adolescentes, ainda que não seja confirmado pelas estatísticas, pode ser um problema que afeta a cultura ocidental, na avaliação de Laura. Ela lembra que, em muitas culturas, existe o ritual de iniciação que marca a passagem da infância para a vida adulta. “Os jovens ocidentais não podem contar com esse recurso do rito, que é simbólico”, observou.

Antonio Carlos, do Soep, destacou a importância de criar-se uma “rede protetora” em torno da pessoa com propensão ao suicídio
Antonio Carlos, do Soep, destacou a importância de criar-se uma “rede protetora” em torno da pessoa com propensão ao suicídio

Mas é necessário que ele exista, para que o jovem encontre seu lugar. Por isso surgem tantos questionamentos nessa fase, muitas vezes incompreendidos pelos adultos, pais e professores, que reclamam não ter mais autoridade sobre os jovens, ressaltou a psicanalista.

Laura também afirmou que é comum os adolescentes apresentarem transtornos de conduta antes de tentarem o suicídio. “E essas expressões precisam ser lidas pelos adultos”. A psicanalista observou que o adolescente que tenta o suicídio não almeja simplesmente acabar com a própria vida. “É muito mais uma tentativa de acabar com o sofrimento interno que sente”.

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Mito

Laura também falou dos mitos que rondam o suicídio. Segundo ela, é mito afirmar que o adolescente que fala em se matar só quer chamar a atenção e não vai tentar o suicídio. “Assim como é mito a crença de que a pessoa comete suicídio de uma hora para outra, sem dar sinais de que está em sofrimento.”

Falar sobre o suicídio não inclui apenas o tema prevenção. Laura orientou os pais a abordarem o assunto quando ocorre algum caso com alguém próximo. “Precisamos cuidar de quem fica. Os pais devem acolher os filhos, ouvir suas angústias. O suicídio não pode mais ser um tabu”, enfatizou.

O acolhimento também pode ser lúdico. Compartilhar momentos, de preferência que sejam lúdicos, gera cumplicidade e aproximação entre pais e filhos, observou a psicanalista. Adolescentes também precisam fazer atividades físicas, até como forma de gastarem energia e diminuírem o excesso de pensamento.

As duas palestrantes foram enfáticas em relação ao uso de bebidas e substâncias psicoativas pelos adolescentes. Adolescentes são pessoas em desenvolvimento e o uso dessas substâncias podem afetar a formação dos jovens, além de serem gatilhos para problemas como a depressão, um dos fatores relacionados ao suicídio. 

Juliana alertou que os adolescentes estão se “automedicando” ao usarem drogas lícitas e ilícitas.  Parece ser essa,  avaliou a médica, a maneira que eles entendem adequada para reduzir seus sofrimentos internos.

Os pais e responsáveis presentes participaram ativamente do debate, fazendo muitas perguntas e também relatos de casos de automutilação e suicídios entre jovens.

Pais e responsáveis fizeram muitas perguntas e relatos durante o evento
Pais e responsáveis fizeram muitas perguntas e relatos durante o evento

Saiba mais sobre as palestrantes

Laura Sarmento – Especialista em Saúde Mental e psicanálise pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em Psicologia Clínica pela PUC. É psicanalista e supervisora clínica e institucional da Rede de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Foi assessora de Saúde Mental na Atenção Primaria da Superintendência de Saúde Mental da SMS do Rio, nos últimos quatro anos, onde trabalhou na implantação de políticas públicas para a prevenção do suicídio e saúde mental da infância e adolescência.

Juliana Pimenta –  Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Professora da Pós-Graduação em Psiquiatria e Psicanálise da Infância e Adolescência do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência  (SPIA) da UFRJ.

 

 

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