Especialistas debatem adolescência com pais e responsáveis do Humaitá II

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Stella Stella Regina Taquette (direita)  e Érica Matilde Canarim
Stella Stella Regina Taquette (direita) e Érica Matilde Canarim

No dia 18 de dezembro o Campus Humaitá II recebeu duas especialistas para falar sobre o tema “Adolescência em foco: compreendendo essa fase da vida e qual o papel da família em tal contexto”: a médica e professora titular da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Stella Regina Taquette, e a psicóloga, doutoranda e pesquisadora da Uerj Érica Matilde Canarim.

A iniciativa do Setor de Orientação Educacional e Pedagógica (Soep) e da Direção-Geral do Humaitá II teve como proposta proporcionar aos pais e responsáveis mais informações sobre a passagem da infância para a vida adulta, fase conhecida como adolescência.

As especialistas falaram para uma plateia formada por pais e responsáveis e servidores do HU2
Stella é pediatra com mestrado e doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente e  professora titular da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj. Erica é doutoranda e pesquisadora da Uerj com experiência em programas de atendimento comunitário

Com doutorado e mestrado em Medicina (Saúde da Criança e do Adolescente) pela Universidade de São Paulo (USP), Taquette fez uma explanação sobre a adolescência em seus aspectos biológicos, socioculturais e psicológicos. Lembrou que o que hoje se caracteriza como adolescência é uma concepção moderna, que inexistia na antiguidade e na Idade Média. A própria ideia de infância que temos não era uma questão, ressaltou a médica. “As crianças eram vistas como adultos em miniatura e isso pode ser constado nas pinturas da época”, observou.

O fortalecimento do espaço privado e dos laços afetivos entre os membros de uma mesma família vão configurar a ideia de infância e adolescência. “A partir do século XIX os papeis sociais dos homens e mulheres são redefinidos e a família deixa de ser apenas uma unidade econômica”, explicou a médica. As constantes guerras também trouxeram preocupação em relação à sobrevivência dos jovens e, consequentemente, das futuras gerações.  “É por essa época que as escolas começam a substituir o papel da família na educação dos filhos”, acrescentou.

As especialista falaram para uma plateia formada por pais e responsáveis e servidores do HU2
As especialistas falaram para uma plateia formada por pais e responsáveis e servidores do HU2

O século XX viu aumentar também o período da adolescência e da escolaridade, que ganha proporções ainda maiores na atualidade, com a consequente entrada ainda mais tardia na vida adulta. Novas configurações familiares surgem nesse cenário, como os casamentos homoafetivos, e aumento do número de adoções se torna significativo.

Mudanças

Em relação aos aspectos biológicos, a médica destaca uma diminuição da idade da menarca. “Se no passado a menina menstruava com 14, 15 anos, hoje a idade média é por volta dos 11,5”, informou. Uma das possíveis explicações seria a melhora nas condições de vida da população. Já a semenarca (primeira ejaculação) pode acontecer a qualquer tempo, após os 12 anos de idade.

As especialistas falaram das mudanças que envolvem a adolescência em seus aspectos biológicos, emocionais e sócio-culturais
Erica e Stella abordaram as mudanças que envolvem a adolescência em seus aspectos biológicos, emocionais e sócio-culturais

O fato é que tanto as meninas como os meninos podem gerar filhos ao final desses processos biológicos, como destacou a psicóloga Erica. Mas se os corpos já podem ser considerados de adultos, a estrutura psicológica está longe disso.

Os aspectos psicológicos da adolescência se caracterizam pela busca de identidade, o que não raro acaba em crise ou rebeldia. “As mudanças são rápidas, um novo papel social se apresenta na vida do adolescente. As famílias também têm dificuldade de se acostumar com as mudanças”, observou a psicóloga.

Segundo Erica, o pensamento da criança, que é mágico, cede lugar para uma forma mais realista de se ver o mundo. “E isso pode trazer decepções”, ressaltou, explicando que o filho que antes pensava igual aos pais adquire conceitos novos na adolescência. “Ele quer ter sua própria identidade, marcar território. Por isso tem necessidade de contestar, e os pais se ressentem de tudo isso”, argumentou Erica, lembrando que é difícil deixar de ser super-herói.

O debate contou com a participação ativa dos pais e responsáveis e de servidores do HU2. No primeiro plano á esquerda o psicólogo do Soep Antônio Carlos Vilella
O debate contou com a participação ativa dos pais e responsáveis e de servidores do HU2. No primeiro plano à esquerda o psicólogo do Soep Antônio Carlos Villela

Para o menino, de acordo com a psicóloga, é ainda mais difícil essa passagem, perceber que cresceu, está deixando de ser criança e que conta agora com um corpo desengonçado. “As meninas são mais bem preparadas para essa passagem que os meninos”, constatou.

Intimidade

A psicóloga ressaltou ainda que essa fase, não raro, vem acompanhada por um maior distanciamento dos pais. “Isso acontece naturalmente, uma vez que os filhos vão crescendo e não exigem mais tato cuidado braçal por parte dos pais. Por outro lado, essa situação pode gerar uma falta de intimidade com os adolescentes, e ela é difícil e se resgatar depois”, observou.

“Adolescentes ainda precisam de cuidado e de proteção. A intimidade é importante para eles também. Temos de respeitar a individualidade deles, mas é preciso estarmos prontos para quando precisarem da nossa atenção como pais”, observou Erica, ressaltando que o adolescente vive um luto pelo fim da infância, pela perda da condição de criança.

Ricardo Miranda, chefe do Soep, disse que novos encontros sobre a adolescência serão programados para 2020
Ricardo Miranda, chefe do Soep, disse que novos encontros sobre a adolescência serão programados para 2020

Taquette acrescentou ainda que esse sentimento de luto e a busca pela identidade vêm acompanhados por outras características, como o pensamento abstrato, a construção da identidade sexual, o afastamento progressivo dos pais, a tendência grupal, as alterações do humor, com consequente isolamento, e um deslocamento temporal (o que é urgente para o adolescente não é para os pais).

Continuidade

Os pais e responsáveis presentes participaram ativamente do debate, com muitas perguntas e relatos de experiências. O chefe do Soep disse ao final do evento que outras edições vão acontecer ao logo de 2020. “Nossa intenção é sempre trazer para o campus profissionais qualificados para debater a questão da adolescência com pais e responsáveis”, afirmou.

Outros tópicos abordados durante a palestra

Cuidados

Apesar das mudanças advindas com a sociedade contemporânea, ou pós-moderna, marcada por um desenvolvimento tecnológico muito intenso, alguns comportamentos não mudaram. Um deles diz respeito à necessidade de cuidado que o ser humano precisa para se tornar um indivíduo saudável e com uma boa autoestima para enfrentar os desafios da vida.

Autonomia

A questão da autonomia é complexa para os pais, que não sabem ao certo como e quando dar mais ou menos liberdade de escolha aos filhos. Existem aqueles que não percebem quando dão liberdade excessiva para pessoas ainda em formação, o que pode caracterizar um abandono. O certo é que falar não é sempre mais difícil que falar sim. Por outro lado, proteção demais pode acarretar indivíduos inseguros. Os pais não podem impedir que os filhos cresçam.

Quando um filho ocupa um lugar de quase adulto na casa, já cumpre com algumas tarefas, é um sinal de que já é hora de começar a sair sozinho.  Mas é preciso ficar atento às demandas do filho e não dar a ele o que ainda não foi pedido, ao menos não até os 15 anos. Se a questão da autonomia de sair sozinho ainda não foi colocada pelo adolescente, é porque não está na hora ainda de ele ter essa independência, um sinal de que não se encontra preparado. O adolescente não espera que os pais digam para ele que já pode fazer algo por conta própria.

Comunicação

É preciso que os adultos da família estejam de acordo sobre um mesmo assunto. Quando isso não acontece e existe um vácuo na comunicação, o adolescente percebe.

ECA

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é dever da família acompanhar o desenvolvimento da criança e do adolescente.

Críticas

É papel dos pais e responsáveis cuidar, amar, dar carinho e atenção e valorizar as ideias e pensamentos dos filhos. Mas também é preciso ser verdadeiro, dar bons exemplos, ter respeito, à privacidade inclusive, e não depreciar e criticar de forma destrutiva as opiniões das crianças e adolescentes.

Mudança de comportamento

Crianças e adolescentes se manifestam de forma diferente do normal quando algo não vai bem: distúrbio do sono, do apetite, do humor, alterações esfincterianas, além da piora no desempenho escolar.

Por fim, vale lembrar:

Autoridade é diferente de autoritarismo.

Impor limites é necessário.

Violência nunca é uma opção.

Bebida alcóolica, apesar de socialmente incentivada, deve ser evitada.

Saiba mais sobre as palestrantes:

Stella Regina Taquette: Possui Pós-doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, Doutorado e Mestrado em Medicina (Saúde da Criança e do Adolescente) pela Universidade de São Paulo, Especialização em Ética Aplicada e Bioética pela Fundação Oswaldo Cruz, Residência Médica em Pediatria e Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É Professora Titular da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e Procientista. Coordenadora Geral do Programa de Pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva – PPGBIOS, Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PGCM) e Cientista do Nosso Estado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). É avaliadora institucional e de curso de medicina do INEP-MEC. Tem experiência nos temas adolescência, sexualidade, dst-aids, gênero, violência, bioética, educação médica e metodologias qualitativas de pesquisa. Tem 87 artigos publicados em periódicos científicos, é autora e/ou organizadora de 10 livros e 39 capítulos de livros. Atualmente Professora Visitante do Imperial College London, bolsista da Capes.
Érica Matilde Canarim: Possui graduação em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)  e mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é psicóloga e pesquisadora da Uerj. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Programas de Atendimento Comunitário, atuando principalmente nos seguintes temas: psicologia clínica, qualidade de vida, Transtorno por uso de substâncias, violência de gênero, desenvolvimento social e comorbidades psiquiátricas.

 

 

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