Frentes Negras ganham força no CPII


Yasmin e Eloah, alunas da Frente Negra de São Cristóvão

 

A necessidade de desconstruir o racismo, presente em nossa sociedade desde as formas mais sutis até as mais escancaradas, e de conscientizar sobre as questões étnico-raciais tem mobilizado grupos de estudantes nos diversos campi do Colégio Pedro II. Em Duque de Caxias, Engenho Novo II, Humaitá II, Niterói, São Cristóvão III e Tijuca II, estes estudantes se organizam por meio de Frentes Negras, para debater identidade, apropriação cultural, padrões de beleza, entre tantos outros temas, mostrando que a questão racial está longe de ser uma discussão ultrapassada em nossa sociedade.

 

Para as alunas Yasmin Ferreira, 17 anos, e Eloah Pinto, 15 anos, integrantes da Frente Negra de São Cristóvão, a criação do grupo era mais do que necessária. No entanto, conquistar a adesão dos colegas às discussões não tem sido um trabalho fácil. “Achamos que não fosse ser tão difícil chamar outros alunos negros, mas vimos que era difícil sim. Algumas pessoas negras ainda enfrentam um tabu e não se reconhecem como negras”, acredita Yasmim. “Acho que no nosso colégio existem muitos negros e poucos se sentem próximo da identidade negra. Muitos entram numa de 'não sou negro, sou pardo', já que é mais fácil não se impor e ficar passivo”, completa Eloah.

 

Eloah acredita que uma das formas de sensibilizar os alunos e gerar identificação seja partindo de situações vivenciadas no cotidiano. “Se eu chegar para um garoto negro do Ensino Médio e propor uma discussão sobre apropriação cultural, ele com certeza vai falar que eu vejo racismo em tudo, que todo mundo é humano. Ele não tem consciência disso, ele foi ensinado a ser passivo a tudo isso. Mas se eu falar sobre a situação de revista nos ônibus, ele vai se sensibilizar”, pontua.

 

Estética e identidade

A forma como nos apresentamos às outras pessoas diz muito sobre quem somos. Para a Frente Negra de São Cristóvão falar sobre estética é também debater os padrões de beleza impostos pela sociedade, especialmente no que diz respeito a não aceitação das caraterísticas negras como uma das tantas formas de beleza. Yasmin ressalta que desnaturalizar certos padrões não é uma tarefa fácil e aceitar seus traços acaba se tornando uma atitude de resistência.

 

Aluna do Colégio Pedro II há 12 anos, desde o 8º ano ela decidiu usar seu cabelo crespo ao natural e sentiu o preconceito vindo de pessoas que considerava como amigas.  “É muito pesado, porque você não quer se indispor com seus amigos e acaba sofrendo muito tempo calada. As pessoas falavam 'Você era tão bonita', 'Como assim você tá usando esse cabelo pra cima?' Você acaba se afastando dessas pessoas que te fazem mal e se aproximando de pessoas iguais a você”, conta. Para ela, a Frente Negra, ao tocar nesse assunto e ao ter integrantes que valorizam a beleza negra, acaba por se tornar um local de acolhimento e identificação para outros alunos negros.

 

Yasmin e Eloah destacam que a Frente Negra tem encontrado muito apoio para debater a questão da identidade negra através das ações do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) de São Cristóvão II. O Núcleo tem organizado eventos e oficinas sobre cabelo e turbantes voltadas para alunos e servidores. “É legal porque você acaba vendo que os funcionários negros se reconhecem e também buscam nossa ajuda para debater essa questão”, destaca Eloah.

 

Resgate histórico

Preservar a história e a cultura de um povo é contribuir para perpetuar sua identidade. Assim, o ensino da história e cultura afro-brasileira é uma forma de empoderar e fortalecer o vínculo de alunos negros com suas raízes. Para Yasmin, é importante que a escola inclua o ensino da história negra para além da escravização e colonização do continente africano e que esta seja uma prática contínua. “Isso não deve ser discutido em um mês só, e sim durante todo o ano”, defende.

 

Eloah destaca a importância de a escola valorizar pensadores e personalidades negras que tiveram destaque em suas áreas de atuação para que o aluno negro se identifique e se orgulhe de suas raízes. “Se um aluno negro passa a vida toda só escutando a visão de pensadores brancos, que referência vai ter para se identificar?”, questiona.

 

Mesmo com o pouco tempo de atividade da Frente Negra de São Cristóvão, as alunas têm plena consciência da importância e da necessidade da criação de grupos como este no Colégio Pedro II: problematizar, conscientizar e empoderar.

 

 

 

Bianca Souza - Coordenadoria de Comunicação Social

 

 

 

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