Dia do Professor: Conheça a história de dedicação do professor Miljenko Zurovac


O professor Miljenko com alunos do 7º ano e a aluna terceirizada Priscila Paulina

 

No dia 15 de outubro é comemorado o Dia do Professor. Como forma de homenagear todo o corpo docente do Colégio Pedro II, entrevistamos o professor de Matemática do Campus São Cristóvão II, Miljenko Zurovac. Nascido em Sarajevo, na antiga Iugoslávia (hoje Bósnia e Herzegovina), Mil, como é carinhosamente chamado por alunos e colegas de trabalho, leciona para seis turmas do 6º e 7º anos e também integra o corpo de professores do projeto Orientação Educacional para Terceirizados, coordenado pelo Sesop do campus.

 

Assim como a história de muitos outros professores e professoras do CPII, a história de Mil representa, por meio de sua trajetória de lutas e de vitórias, os esforços e a perseverança de todos os docentes por um ensino de qualidade para todos e todas.

 

- Professor, poderia nos contar um pouco da sua infância e da sua história de vida no seu país de origem?

Miljenko Zurovac - Sou croata. Nasci em 1962, na antiga Iugoslávia, na cidade de Sarajevo, hoje, capital da Bósnia. Tive sorte, pois nasci numa família típica de classe média e cresci ao lado dos meus pais.   Meu pai foi fundador e chefe da “Rádio MEC” na minha terra e a minha mãe foi professora, e essa vivência despertou meu interesse por várias coisas. Uma amiga me falou uma vez, que eu “não conseguiria fazer tudo que queria nem se vivesse mil anos”.

 


FOTO: Os pais do professor Miljenko

 

Onde nasci, existe um provérbio que diz: “o primeiro amor nunca se esquece”. E sem nenhuma dúvida, o meu primeiro amor foi o futebol. É incrível como tantas crianças dividem o mesmo sonho! Ainda lembro da conversa que tive com meu pai quando fiz 16 anos de idade:

- Meu filho, já pensou sobre o seu futuro?

- Sim, pai.

- Então, o que quer fazer na vida?

- Quero jogar futebol.

Nesse momento, meu pai enlouqueceu: 

- O que é isso?!  Você nasceu numa boa família e não vai jogar futebol! Vou te dar uma semana para pensar o que vai estudar na universidade.

Alguns dias depois, meu pai me chamou de novo:

- Você decidiu o que quer estudar?

- Claro, pai!

- Fala logo, meu filho, o que escolheu?

- Quero estudar para ser técnico de futebol.

Já devem saber o que aconteceu depois disso...  Orelha vermelha, etc. (risos).  Então, ao invés de futebol, meus pais decidiram que eu deveria estudar Direito.

Em 1991, começou a Guerra Civil Iugoslava, com a devastação da Iugoslávia e a sua divisão em seis terras, entre elas, Croácia e Bósnia.  As Guerras de Independência da Eslovênia e Croácia e a Guerra da Bósnia terminaram por volta de 1996.

Tive sorte, porque consegui sobreviver à guerra, mas todos esses anos que passei nas trincheiras como soldado, me influenciaram muito.  Nos combates, percebi que não se dá valor a vida, que nossas crenças são vencidas por nosso instinto de sobrevivência, visto que nossos pensamentos ficam distorcidos perante as atrocidades da guerra.

Acho que Freud tinha razão quando apontava o instinto de preservação da espécie como sendo o principal instinto do ser humano. Durante a guerra, vi várias pessoas arriscarem e sacrificarem suas próprias vidas tentando salvar crianças desconhecidas. O instinto de sobrevivência fica em segundo lugar.

Lembro que quando tudo terminou, fui uma das primeiras pessoas a passar a linha de frente e entrar na parte da cidade de Sarajevo dominada pelos sérvios durante a guerra. Claro que o gramado onde jogava futebol foi o primeiro lugar que visitei depois da guerra!  Este gramado foi um dos lugares mais perigosos durante a guerra, pois ficava a uns 150 metros de distância da linha de confronto. Aproximei-me do gol, onde costumava ficar como goleiro antes da guerra, e, de repente, vi o meu nome numa frase escrita no topo de uma das traves: “Não queremos a guerra, queremos assistir o Mil.”  Logo percebi, que uma das crianças que gostavam de acompanhar os meus jogos e de torcer por mim, arriscou a sua vida durante o confronto para deixar registrado seu protesto contra a guerra. Esta foi a maior medalha da minha vida!

 

- Como se sentiu depois da guerra?

MZ - Quando a guerra terminou, passei alguns meses com meus primos, pescadores que vivem num dos parques nacionais mais lindos do mundo chamado Mljet [Mlhet].  Passei muito tempo chorando e deprimido.  Andava pela floresta sozinho ou ficava no barco do meu pai, bem longe da terra.

Meu tio trabalhava na Suécia como diplomata naquele período, então, minha família se mudou para lá no final de 1996.  Na Suécia, recomecei a vida do zero. Decidi estudar Física Teórica e Matemática na Universidade de Estocolmo. No “Fysikum”, estudei com os melhores físicos do mundo e cheguei até a acompanhar uma aula do famoso Stephen Hawking. Nunca esquecerei a gentileza e a nobreza destes cientistas! Eles me acolheram e ficaram do meu lado.

 

- O que te fez escolher ser professor?

MZ - Só vi um jeito de pagar essa dívida.   Retribuir o que fizeram por mim, auxiliando outras pessoas. Foi assim que decidi me tornar um professor.

 

- Como decidiu vir para o Brasil?

MZ - Em 2006, comecei a pensar em sair da Suécia e vir para o Brasil. Meu pai costumava dizer que o brasileiro deveria ser um bom povo, porque nasceu da mistura de vários povos, então, decidi aprender a língua portuguesa. Consegui entrar em contato com vários brasileiros por meio de dois sites que servem para estudo de línguas estrangeiras, onde aprendi minhas primeiras frases em português. A Andréa era uma das pessoas com quem conversava. Com o passar do tempo, comecei a achá-la especial e quis conhecê-la.  Foi assim que vim para o Rio de Janeiro. Depois, Andréa foi conhecer Estocolmo...  Em 2008, nos casamos. Me naturalizei em 2016. Gosto do Brasil, me sinto brasileiro e quero viver aqui o resto da vida com Andréa, amor da minha vida!

 

- Como começou a lecionar no Brasil?

MZ - Quando mudei para o Brasil, entrei em um curso de português para estrangeiros e estudei a língua portuguesa por dois anos.  Neste período, consegui revalidar os diplomas da Suécia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Quando percebi que meu português estava bom para poder acompanhar as aulas de Matemática e Física, decidi prestar vestibular na UFRJ e fazer licenciatura em Matemática. Naquele período, consegui uma vaga como estagiário no Colégio Pedro II. Esse foi o meu primeiro contato com a instituição.

 


Por onde passa, Mil recebe o carinho de seus alunos

 

- Como é ser professor em um colégio com 180 anos de história como CPII?

MJ - Trabalhar como professor do Colégio Pedro II é um prazer, mas requer grande dedicação. Basta lembrarmos de que o colégio foi premiado várias vezes pelo MEC como um dos melhores Centros Educacionais do Brasil.

Ter a consciência de que duzentos jovens dependem diretamente de você e de suas explicações é uma força mobilizadora que te impulsiona a procurar por outros caminhos de transmissão da matéria. Portanto, um professor não pode parar de evoluir. Sinceramente, meu objetivo é atingir o nível dos meus colegas. Graças a eles, avancei muito no plano profissional e como ser humano nos últimos anos! Como dizem os desportistas: “é muito fácil jogar bem quando se tem um bom time”.

Sabendo que o português não é minha língua materna, presto muita atenção quando estou em sala de aula e tento ser bem claro. Estou muito feliz em saber que os alunos me apoiam e me ajudam a superar este problema!

 

- Você leciona para qual(ais) série(s)?

MJ – Esse ano, estou dando aulas para os 6º e 7º anos, totalizando seis turmas no Campus São Cristóvão II. Não é fácil trabalhar com estudantes dessa faixa etária, pois costumam ser agitados e, na maioria dos casos, ainda são imaturos para terem o entendimento da importância do estudo.  Não é fácil explicar para uma criança de 12-13 anos de idade, que a luta por uma condição de vida com qualidade, na verdade, já começou.

 

- Você participa de algum projeto pedagógico desenvolvido no CPII?

MJ - Participo de dois projetos em São Cristóvão II.  Estou como responsável, em conjunto com o professor Jorge da Silveira, pela oficina de xadrez, e participo do projeto de Orientação Educacional, organizado e coordenado pela chefe do Setor de Supervisão e Orientação Pedagógica, Patrícia Rosa.

 

- Leciona em outros colégios?

MJ –Também leciono no Centro Educacional da Lagoa (CEL), na unidade Barra da Tijuca, como responsável pelo apoio e recuperação. Nos dois últimos meses, ministrei quatro cursos preparatórios para a prova do ENEM organizados pela Fundação Bradesco.

 

- Você tem algum sonho?

MJ - Eu e minha esposa queremos muito adotar uma criança. Estamos aguardando há quatro anos para termos a alegria de uma criança em nosso lar, mas ainda não deram previsão de data para o nosso pedido. Torço para que este dia chegue em breve, enquanto tenho saúde...

Meu outro sonho é conhecer Zeca Pagodinho (risos). Há alguns anos, assisti na televisão uma reportagem sobre um homem que arriscou a sua vida tentando salvar uma criança que caiu num riacho no período de chuvas fortes. Esse homem é o Zeca.  Seria um imenso prazer conhecê-lo!

 


Miljenko com sua esposa Andréa

 

- Que mensagem gostaria de deixar para seus alunos?

MJ - Os filósofos gostam muito de comparar a vida com o jogo de xadrez, dizendo que a avaliação objetiva de uma posição temporária é decisiva para o resultado final do jogo. Como o resultado desta avaliação, surge um plano que se segue na tentativa de atingir o objetivo. Lembro-me de um conselho dado por um jogador de xadrez profissional: “Ninguém ganha sempre. Às vezes você ganha e às vezes você perde. Isso faz parte da vida. Quando perder, não chore! Analise os erros que cometeu e que te fizeram fracassar. Nunca desista!”

 

 

 

Setor de Comunicação do Campus São Cristóvão II

Assessoria de Comunicação Social

 

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