Propostas de trabalho

 

 

 

1. LEITURA COMO PRÁTICA SOCIAL

A leitura constitui uma prática social, já que pressupõe a interação entre leitor-texto-escritor, situados social, política, cultural e historicamente na construção do significado. Portanto, os aspectos cognitivos e sociais da leitura são elementos integrantes desse processo.

Diferentemente do modelo de leitura de decodificação (centrado no texto e, portanto, na informação encontrada na página impressa, caracterizando assim um processo ascendente de leitura) e do modelo psicolingüístico de leitura (centrado no leitor e, portanto, na informação que ele traz para o texto caracterizando, desse modo, um processo descendente de leitura), o modelo sócio-interacional de leitura considera que o fluxo da informação opera em ambas as direções. Dessa forma, ler é um processo que envolve tanto a informação contida no texto quanto aquela trazida pelo leitor para o texto.

Ainda segundo o modelo sócio-interacional, os falantes de uma língua utilizam quatro tipos de conhecimento na construção do significado: (a) conhecimento sistêmico, abrangendo os aspectos léxico-semânticos, morfológicos e sintáticos, ou seja, o conhecimento dos sistemas da língua, que traduzem a competência lingüística do leitor e que lhe permite fazer inferências, estabelecer coesão, etc; (b) conhecimento de mundo, referente ao conhecimento convencional que as pessoas têm sobre as coisas do mundo e que lhes

permitem fazer previsões e construir hipóteses baseadas no conhecimento que já possuem (seu pré-conhecimento); (c) conhecimento textual, que diz respeito às convenções sobre a organização da informação nos diferentes tipos de texto, e (d) conhecimento de outros meios semióticos.

É importante acentuar que nesse processo de construção do significado o leitor não faz uso de um ou de outro nível, de uma ou de outra competência ou apenas de sua capacidade de interpretar o texto e de compreendê-lo, mas utiliza todos eles ao mesmo tempo e, muitas vezes, sem que tenha consciência disto.

De acordo com a concepção de leitura como prática social, não é possível supor que cada leitor crie um significado com base na sua própria subjetividade, mas sim como membro de uma comunidade interpretativa (Fish, 1993). Como afirma Moita Lopes (1996c):

“lemos como mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, negros, brancos, pobres, ricos, mais ou menos letrados, progressistas, conservadores, etc. agindo no mundo social através do discurso escrito em um momento sócio-histórico específico o que significa dizer que lemos como comunidades interpretativas”.

Portanto, o ato de ler é muito mais complexo do que simplesmente entender o que diz o escritor. Na verdade, o objetivo principal é estabelecer relações sociais, comunicar ideias e emoções, exercer controle, posicionar-se socialmente, buscar privilégios e recompensas, envolver-se em diversos tipos de interação social. Podemos, então, afirmar que ler é uma forma de agir no mundo.

Entendemos que a leitura é uma habilidade necessária para o aprendiz, que poderá continuar a usá-la autonomamente dentro e fora da escola. Ao se fornecer ao estudante o instrumental necessário para que ele possa dominar o processo de leitura em língua inglesa, também se estará estimulando a sua consciência crítica no intuito de contribuir para a sua formação como cidadão que participa, transforma, constrói e reconstrói a realidade, tanto no contexto interno do seu país como em sua relação com o mundo.

2. PRODUÇÃO TEXTUAL

Assim como a leitura, escrever, além de ser uma atividade pessoal e particular, é também uma prática social. Desse modo, a prática escrita deve ser interpretada como ação e interação sociais – portanto, dialógica –, e um processo historicamente situado.

Dessa perspectiva, o texto escrito é imbuído de significado ideológico e reflete o posicionamento do escritor e/ou as práticas textuais da comunidade de que faz parte, ou seja, reflete uma visão de mundo específica de um grupo social. Isto significa dizer que ela não pode ser desvinculada de seu contexto de uso e de seus usuários: cada língua e cada cultura usam a escrita em diferentes contextos e para diferentes finalidades.

Ao interagirem com o mundo, os indivíduos procuram estabelecer relações, causar efeitos, desencadear comportamentos, enfim, buscam atuar de determinada maneira dentro de seu grupo social. Nesse processo, produzem diferentes textos, com base em diversas formas de expressão verbal e não-verbal. É fundamental, então, reconhecer que existem inúmeras possibilidades de construção textual em função dos objetivos da interação falante/ouvinte e do contexto social em que essa construção é produzida.

Desse modo, uma das condições básicas para o desenvolvimento da competência comunicativa do aluno é a consideração do texto (enunciado) como a unidade básica de ensino, deslocando a prioridade tradicionalmente atribuída às atividades de descrição e análise de estruturas gramaticais. Naturalmente, não se vai abrir mão de ensinar gramática mas o foco passa a ser a produção escrita, colocando em evidência os propósitos de escritor e leitor, os efeitos produzidos e os significados construídos nessa cadeia de comunicação, em lugar de suas propriedades formais. Desloca-se, portanto, o eixo do processo ensino-aprendizagem de uma prática normativa, que prioriza a análise da língua e a gramática, para o entendimento do uso/função da linguagem em leitura e produção de textos.

 

 


 

Acessos Hoje:16863  Total Acessos:10331717