Um dia no quilombo

Alunos do Campus Tijuca II durante aula de campo na comunidade Quilombo do Campinho, em Paraty


Entre os dias 4 e 6 de setembro, 31 alunos do Ensino Médio do Campus Tijuca II tiveram uma oportunidade única: participaram de uma aula de campo de três dias em Paraty, onde conheceram a Comunidade Caiçara da Praia do Sono e o Quilombo do Campinho da Independência, seus moradores, histórias e modos de vida.


A atividade extraclasse fez parte do projeto “Populações Tradicionais do Rio de Janeiro”, da professora de Filosofia Aline Carmo, que integra a linha de pesquisa “Resgate da memória - história de povos e culturas invisibilizados”, desenvolvida pelo Laboratório de Humanidades do Campus. A professora de Biologia do Campus Clarissa Brazil Sousa, também participou da aula de campo.


Integraram ainda o projeto os professores Cláudia Affonso (História), Ana Flávia Costa (Filosofia), Joana Tolentino (Filosofia), Diego Reis (Filosofia), Bárbara Fontes (Sociologia) e Leandro Vendramin (Sociologia).


Abaixo seguem os relatos de três alunas que participaram da vivência no Quilombo Campinho da Independência. As estudantes também fazem parte do Programa de Iniciação Científica Júnior, por meio do projeto "Liberdade e Reconhecimento: Identificação das Populações Caiçara e Quilombola do Rio de Janeiro", sob orientação da professora de Aline Carmo.




Nathália Simonetti – turma 2202



FOTO:  uma das fundadora do quilombo


“O quilombo do Campinho é um lugar surpreendente, que mostra bem a resistência negra e a força feminina, porque foi graças a três mulheres que o quilombo se consolidou e virou um lar para as suas futuras gerações. Sem contar o trabalho incrível das pessoas do plantio. Eles plantam para eles mesmos e para o reflorestamento.


Lá participamos de várias atividades. Primeiros tivemos uma roda de conversa com a Mestre Griô, que nos contou a história da comunidade. Em seguida fomos conhecer o lugar, nos mostraram os núcleos familiares, onde o mais velho constrói sua casa e as gerações seguintes constroem seus lares em volta dessa casa, fazendo com que assim todos tenham uma ligação com a família.


Conhecemos as casas de farinha, que antes era comunitária, mas, conforme os anos foram se passando, cada residência criou a sua própria. Almoçamos o peixe à moda quilombola, um peixe com palmito na manteiga e farofa de banana com camarão, uma delícia!!!


Por último, participamos da oficina de jongo. Nos contaram que as músicas do jongo eram músicas criadas por escravos como códigos para contar aos outros por quais os lugares as pessoas podiam escapar, e que essa dança pode durar uma noite inteira, um dia inteiro ou algumas horas.


Foi uma experiência incrível e uma ótima forma de nos mostrar essa resistência negra e sua luta pelo reconhecimento de ser uma sociedade como todas as outras, além de mostrar que elas merecem total respeito.”



Samary da Silva Rosa Freire – turma IN308



FOTO: Roda de conversa com a Mestre Griô

 

“Passamos três dias em Paraty e, no domingo, foi o dia de conhecer a comunidade Quilombola no Campinho da Independência. O dia começou com uma roda de saberes com a Mestre Griô contando toda a história e acontecimentos que eles vêm enfrentando ao longo dos anos, e como eles vêm mantendo a sua cultura, mesmo que com muitos empecilhos.


Depois da roda, eles demonstraram os seus conhecimentos na área da agricultura, primeiro mostrando algumas árvores e como são feitos os chás; após, o viveiro de mudas, que é uma forma bem inteligente de cultivo, pois diminui o risco de desmatamento. Seguimos então até a casa de farinha, onde demonstraram como todo o procedimento é realizado e tudo o que mudou ao longo dos anos. Além disso, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco do artesanato. Então foi servido o almoço tipicamente quilombola e, por fim, realizada uma oficina de jongo, que é uma espécie de dança típica.


Todo o conteúdo apresentado foi de grande aprendizado e visto com agrado pelos participantes do projeto. Foi de tamanha GRATIDÃO a maneira como o grupo foi recepcionado. Tive o prazer de aprender vivendo uma pouco da cultura brasileira que infelizmente não é ensinada nas escolas.”



Mariana de Oliveira Silva – turma IN308




FOTO: Viveiro de mudas do Quilombo Campinho da Independência


No dia 6 de setembro, último dia da viagem a Paraty, fomos visitar a população tradicional do Quilombo do Campinho, morada de pessoas que lutam diariamente para que sua identidade não enfraqueça, que levam sua cultura a sério.


As histórias que ouvimos na roda de conversa que aconteceu logo no início da visita me impressionaram positiva e negativamente. De um lado, um povo que luta contra tudo para conquistar o título oficial de comunidade tradicional, que trabalha por horas e dias fazendo farinha, que caminha por longos e difíceis trajetos para chegar à cidade e vendê-la (na época, o dinheiro só existia nas grandes cidades), para então conseguir pagar um advogado que garanta esse título.


Do outro lado, um advogado que recebe esse dinheiro “suado” e nunca mais volta. O advogado recebeu o dinheiro conseguido com muita luta pela comunidade do quilombo e desapareceu sem nenhum tipo de retorno. Lembro-me da frase dita pela mestre Griô: ‘semanas de trabalho duro em vão’. O título foi conquistado com outro advogado. ‘Ainda existem anjos nesse mundo’, frase dita pela mulher que guiou a roda de conversa. Histórias verídicas nas quais penso até hoje.


Eles nos mostraram a Casa de Farinha e o modo como fizeram e ainda fazem farinha, um trabalho braçal intenso e perigoso em alguns momentos. Também nos mostraram a Casa de Artesanato e o restaurante (onde almoçamos), lugares muito importantes para eles, já que são uma conquista, pois eles lutam para trabalhar dentro da comunidade com o objetivo de estar perto dos seus filhos e repassar para eles sua cultura.


Também sentimos apenas um gostinho da sabedoria tão profunda a respeito dos produtos cultivados no Viveiro de Mudas. Um conhecimento muito rico e que nos deixou maravilhados, o que aconteceu em toda a visita.”

 

 

 

Denise Gonring - Coordenadoria de Comunicação Social

Com colaboração de Rene Vettori

 

 

 

Acessos Hoje:188  Total Acessos:17092724